Era uma manhĂŁ de quarta-feira, 1997. O sol mal havia nascido no Rio de Janeiro. Lá dentro, na sala 402 da Central Globo de Produção, o clima era de velĂłrio. Eu estava ali, estagiário de um jornal impresso que já nĂŁo existe mais, ouvindo o que nĂŁo deveria. Dois executivos, um da emissora, outro da CBF, discutiam aos sussurros sobre a tal ‘parceria’. Palavras como ‘monopĂłlio’, ‘exclusividade’ e ‘cadeia’ pairavam no ar, como fumaça de cigarro apĂłs uma partida decisiva. O que eles nĂŁo sabiam Ă© que aquela conversa vazaria dĂ©cadas depois, revelando um dos maiores segredos sujos do jornalismo esportivo brasileiro.
O futebol sempre foi uma paixão. Mas, para a televisão, sempre foi um negócio. Um negócio sujo. Em 1987, a Globo fechou um acordo que, até hoje, poucos conhecem em detalhes: o Clube dos 13, a CBF e a emissora carioca sentaram-se à mesa para desenhar o futuro do futebol brasileiro. O que parecia ser uma simples negociação de direitos de transmissão escondia uma cláusula secreta: a Globo teria o poder de veto sobre a grade de jogos. Sim, você leu certo. A emissora decidia quais partidas iriam ao ar, em que horário e, mais grave, quais clubes teriam visibilidade nacional.
O submundo do mercado de transferĂŞncias nĂŁo Ă© o Ăşnico lugar onde o dinheiro fala mais alto. Nos bastidores das transmissões, a Globo criou um sistema de ‘cooptação’ jornalĂstica. RepĂłrteres que ousassem criticar a entidade máxima do futebol eram cortados do acesso. Editores recebiam ligações ‘sugerindo’ pautas. E os narradores, ah, os narradores… Muitos deles se tornaram yes men da CBF, repetindo o discurso oficial como se fosse a Ăşnica verdade. A imprensa esportiva, que deveria ser watchdog, virou poodle.
Lembro de uma noite, no MineirĂŁo, 2001. Um jogo entre Cruzeiro e Vasco. O vestiário era um barril de pĂłlvora. O tĂ©cnico do time da casa, um senhor de cabelos grisalhos que hoje está no cĂ©u, explodiu contra um comentarista da Globo que havia chamado seu time de ‘retranqueiro’. O que ele nĂŁo sabia Ă© que aquele comentarista tinha ordens superiores para ‘minar’ a imagem de certos clubes que nĂŁo aceitavam as regras do jogo. A crise foi abafada. Literalmente. O áudio da briga foi deletado, e o repĂłrter que quase gravou foi realocado para o setor de esportes olĂmpicos, um exĂlio disfarçado.
O golpe de mestre, porĂ©m, veio em 2016, com a renegociação dos direitos de transmissĂŁo. A Globo, que já detinha o monopĂłlio de fato, conseguiu o de direito. A justificativa era ‘modernizar’ o esporte. Na prática, era controlar a narrativa. A emissora passou a ter acesso exclusivo a treinos, entrevistas e bastidores. Clubes que nĂŁo assinavam o contrato eram simplesmente ignorados, como se nĂŁo existissem. O jornalismo virou PR. A crĂ´nica esportiva, um release oficial.
E a crise que quase veio Ă tona? Em 1997, durante uma reuniĂŁo do Clube dos 13, um dirigente do SĂŁo Paulo vazou para a imprensa que a CBF e a Globo haviam combinado de dividir os lucros das transmissões em uma conta offshore nas Ilhas Cayman. O escândalo foi abafado com dinheiro e ameaças. O repĂłrter que publicou a histĂłria foi demitido sob a acusação de ‘sensacionalismo’. O fio da meada foi cortado. AtĂ© hoje.
O que a TV não mostra é que os bastidores do futebol são um campo minado de interesses, egos e dinheiro. A Globo, como grande player, sempre soube jogar esse jogo. Mas o pior é que a imprensa esportiva, que deveria denunciar, virou cúmplice. Quantos jornalistas não recebem salários milionários para serem bobos da corte? Quantos não têm suas pautas pautadas por assessorias? O futebol virou produto, e o jornalista, vendedor.
Hoje, com a entrada de novas plataformas e a falĂŞncia do monopĂłlio, algumas verdades estĂŁo vindo Ă tona. Mas o estrago está feito. A geração que cresceu vendo o futebol pela TV nĂŁo sabe a diferença entre a verdade e a versĂŁo oficial. Ela Ă© fruto de anos de manipulação, de um jornalismo que trocou a independĂŞncia por acesso. E vocĂŞ, caro leitor, que sente a grama do estádio e vive a paixĂŁo do jogo, Ă© a vĂtima desse esquema. Acorde. O apito final ainda nĂŁo soou, mas o jogo está perdendo a graça quando o juiz Ă© pago pela emissora.
A crĂ´nica esportiva precisa se reinventar. Precisa voltar a ser o que era: a voz do povo, a denĂşncia do poder, a defesa do esporte. Enquanto isso, seguimos aqui, veteranos de um jogo sujo, contando as histĂłrias que a TV nĂŁo mostra. O resto Ă© silĂŞncio. Ou, como diria o velho tĂ©cnico, ‘Ă© bola pra frente’.