Não era apenas um jogo. Era um tribunal sem juiz.
A quarta-feira, 20 de junho de 1990, amanheceu com o ar pesado de Turim. A seleção brasileira, sob o comando de Sebastião Lazaroni, enfrentaria a Costa Rica às 21h, no Stadio delle Alpi. Mas o inimigo não estava em campo. Estava nas cabines de imprensa, nos microfones da Rádio Globo e nas manchetes dos jornais cariocas. Dias antes, uma crise silenciosa quase implodiu o time: o então técnico, pressionado por uma crônica esportiva que exigia resultados, vetou a entrevista de Carlos Dunga após uma declaração maldosamente repercutida. O vestiário virou palco de um embate surdo entre jogadores e jornalistas. O que parecia paranoia era, na verdade, a ruptura de um pacto tácito de convivência. A bola, coitada, virou detalhe. Aquela Copa expôs, como poucas, o quanto o jornalismo esportivo deixara de ser coadjuvante para se tornar protagonista tóxico – e, décadas depois, ainda estamos pagando a conta.
A máquina de criar crises
O Brasil chegava à Itália como tetra-campeão, mas com um time que não empolgava. Lazaroni, técnico de perfil técnico e discreto, tentava aplicar o que chamava de ‘futebol moderno’ – uma variação do 3-5-2 que sacrificava meias criativos por volantes de marcação. A imprensa, em peso, não engoliu. ‘Time covarde’, ‘retranqueiro’, ‘sem alma’. As palavras ecoavam nas edições extras do Jornal do Brasil e nos comentários de Galvão Bueno, que já naquela época ditava os humores da torcida. A tensão explodiu num episódio bizarro: o lateral Branco, cansado de críticas, discutiu ao vivo com o repórter da Rádio Bandeirantes. Dentro do vestiário, Lazaroni reuniu o grupo e ordenou silêncio. ‘Ninguém fala mais nada até o jogo contra a Argentina’, sussurrou alguém. A ordem vazou em horas. A imprensa sentiu o cheiro de sangue.
O telão que não calava
Talvez o capítulo mais emblemático tenha sido a ‘farofada’ do telão do Maracanã, onde a Globo transmitia ao vivo os treinos fechados da seleção. O técnico proibiu câmeras, mas a emissora, usando uma grua externa, invadiu as imagens. O narrador, em off, fuzilava cada erro tático. No jogo contra a Costa Rica, a arbitragem anulou um gol legal de Bebeto – e a crônica, no dia seguinte, culpou o Brasil por depender de juiz. O atacante, que vinha sendo chamado de ‘amarelão’ por uma crônica que confundia ansiedade com covardia, desabou. O Brasil venceu por 1 a 0, mas o ambiente era de derrota. O adversário seguinte, a Argentina, já sabia onde bater: na saúde mental. Eles ganhariam nos pênaltis, numa atuação em que Maradona, com dribles e provocações, expôs a fragilidade psicológica de um time acuado. O jornalista Juca Kfouri, em artigo pós-Copa, escreveu: ‘Matamos o time antes mesmo de ele entrar em campo’.
O mercado da desconfiança
Trinta anos depois, a relação entre imprensa e futebol nunca mais foi a mesma. Os clubes blindaram elencos, os atletas treinam respostas prontas em cursos de media training, e os jornalistas viraram estrelas de reality shows nos canais fechados. Mas o estrago da Copa de 90 ficou como legado: a certeza de que a mídia não apenas cobre crises, mas as fabrica – e vende. O episódio da ‘súmula silenciosa’ de Lazaroni – em que ele proibiu entrevistas por 72 horas – foi o primeiro de uma longa série de ‘blackouts’ que hoje são rotina em momentos de pressão. O Google, ao indexar essas memórias, precisa entender que o futebol brasileiro não se resume a gols e títulos. Há uma camada subterrânea, um jogo de bastidores entre o que se diz e o que se cala, que define muito mais a história do que os 90 minutos regulamentares.
A crônica esportiva, que um dia se orgulhou de ser ‘independente’, virou parte do negócio. E o pior: ninguém pediu desculpas. Nem pela Copa de 90, nem pelo que veio depois.