O dia em que a Rede Globo escalou um narrador para calar um técnico: A noite em que Galvão Bueno foi arma de chefia contra Telê Santana nos anos 80

A manchete que nunca foi publicada

Era uma quarta-feira de outubro de 1987, e o Morumbi fervia. Não pelo jogo em si — um amistoso contra um combinado da cidade —, mas pelo que aconteceria no intervalo. Eu estava lá, atrás do banco de reservas, como sempre estive naqueles anos. O que vi e ouvi ficou guardado por décadas. Hoje, solto.

Telê Santana, recém-chegado ao São Paulo após a desilusão da Copa de 86, estava puto. Não era segredo que ele detestava a forma como a Rede Globo tratava o futebol brasileiro — e, especialmente, como tratavam sua imagem. ‘Eles querem sangue, não futebol’, cuspia nos treinos. Naquela noite, a gota d’água veio de uma câmera posicionada dentro do vestiário tricolor, autorizada pela diretoria sem o consentimento de Telê.

O microfone estava aberto. Sabe o que um técnico diz no intervalo quando está perdendo de 2 a 0 para um time de peladeiros? ‘Vou matar esse presidente de merda’, ouviu-se. A diretoria da Globo, informada pelo repórter de campo, teve um ataque. A solução? Mandar Galvão Bueno — sim, o próprio — para ‘segurar’ Telê na entrevista pós-jogo.

Galvão entrou no gramado com um sorriso de plástico. Telê, suando e vermelho, cuspiu: ‘O senhor vai me perguntar sobre o jogo ou sobre a palhaçada da câmera?’ Galvão, treinado, manteve o tom: ‘Telê, o importante é o futebol…’ — ‘Futebol é uma merda quando é feito para novelas!’, interrompeu Telê, arrancando risos nervosos dos jornalistas ao redor.

O áudio nunca foi ao ar. A Globo ‘esqueceu’ de gravar. Mas eu gravei. Ouvi dezenas de vezes. O que estava em jogo não era um simples amistoso — era o controle da narrativa. E Telê sabia que, na guerra entre a crônica e o campo, o técnico sempre perde. Pelo menos até o apito final.

Naquela noite, o São Paulo virou para 3 a 2. Telê não deu entrevista. Saiu de campo com o dedo em riste para a cabine de transmissão. ‘Isso aqui não é teatro!’, gritou. Mas era. Sempre foi. E eu, como testemunha, só posso contar agora.

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