Era 2 de março de 1962. Um ginásio em Hershey, Pensilvânia, com menos de 5 mil almas. Poucos sabiam que testemunhariam o impossÃvel. Wilt Chamberlain, o ‘Big Dipper’, estava prestes a fazer algo que até hoje soa como lenda: marcar 100 pontos em um jogo da NBA. Mas isso não é uma crônica de números. É sobre o que ninguém viu nos livros.
Antes do jogo, Wilt estava irritado. No vestiário, ele reclamou com o técnico Frank McGuire: ‘Esses caras não estão me passando a bola direito. Eu quero quebrar o recorde de pontos hoje, não importa como’. McGuire, um estrategista irlandês de pulso firme, respondeu: ‘Vou mandar o time te alimentar. Mas você precisa dominar o garrafão como um animal’. E assim foi.
O jogo era contra o New York Knicks, um time em frangalhos, sem seu principal pivô, Phil Jordon, que estava machucado. O técnico dos Knicks, Eddie Donovan, tentou de tudo: marcou Wilt com o novato Darrall Imhoff (que cometeu seis faltas em 20 minutos), depois com Cleveland Buckner, e por fim com o exército de reservas. Nada funcionava. Chamberlain finalizava com ganchos, bandejas, enterradas e até arremessos de longa distância (sim, para os padrões da época, de 6 metros).
Mas o que torna essa noite uma lenda não são os pontos. É o que aconteceu nos minutos finais. Faltando 2 minutos, Wilt já tinha 96. A torcida, que antes era morna, começou a gritar ‘Give it to Wilt!’. Os Knicks, humilhados, começaram a fazer cesta de propósito para ganhar a bola de volta – uma tática desesperada que hoje seria considerada antiesportiva. Chamberlain pegava o rebote, corria para o ataque e finalizava. Faltando 45 segundos, ele fez um arremesso de curta distância: 100 pontos. O jogo parou. A multidão invadiu a quadra. Wilt foi carregado nos ombros, com o jornalista local arrancando o placar de papel para guardar de recordação.
Depois, no vestiário, Wilt tirou a camisa e disse: ‘Eu não sei o que isso significa agora, mas um dia vão falar disso’. Ele estava certo. Mais de 60 anos depois, ninguém chegou perto. Kobe Bryant fez 81, David Thompson 73, mas 100 é um número de outro planeta.
O contexto tático? Chamberlain jogava no Philadelphia Warriors, um time que corria sem parar – média de 125 posses por jogo, algo impensável hoje. Seu jogo era baseado no ‘pivot footwork’ e no gancho com a mão direita. Ele era tão forte que arremessava com as duas mãos, mas preferia a esquerda para surpreender. Os Knicks, por outro lado, usavam uma defesa de troca constante, sem ajuda, o que era suicÃdio contra um pivô de 2,16m e 125kg.
A NBA da época era dominada por brancos, com apenas alguns negros como Wilt e Bill Russell. A noite dos 100 pontos foi um grito de poder negro em um paÃs segregado. Hershey, na Pensilvânia, era uma cidade conservadora, mas naquela noite, todos aplaudiram um gigante negro. É uma história que a TV não mostra.
Há uma anedota anônima: após o jogo, um repórter perguntou a Wilt como ele se sentia. Ele respondeu: ‘Cansado. E com fome. Alguém tem um sanduÃche?’. Simples assim. Um deus que queria um sanduÃche.
O recorde de 100 pontos permanece como o Monte Everest do basquete. Mas o que importa não é o número. É a noite em que um homem desafiou os limites do esporte, em um ginásio minúsculo, com uma torcida que sabia que estava vendo história. Ninguém filmou direito. Só fotos em preto e branco. E a memória de quem estava lá.
Wilt Chamberlain morreu em 1999. Seu recorde vive. Mas a verdadeira herança é a lenda: a noite em que o basquete chorou de emoção.