O Prelúdio de uma Tragédia Anunciada
Imagine um campo de terra batida, cercado por chão de barro e arames farpados. Não havia rede de proteção, nem seguranças uniformizados. Apenas 10 mil almas sedentas, apertadas em arquibancadas de madeira podre, com o cheiro de pólvora no ar. Era 16 de dezembro de 1917, e o Rio de Janeiro assistia ao auge de uma rivalidade que poucos conhecem hoje: Flamengo contra América, na final do Campeonato Carioca. Um jogo que não terminou em campo, mas nos tribunais – e nos corações partidos de uma multidão que nunca mais viu o futebol da mesma forma.
Para entender aquela tarde, é preciso mergulhar no contexto. O futebol carioca ainda engatinhava, mas já sangrava. A Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT) tinha regras que hoje seriam consideradas surreais: não havia substituições, os jogadores atuavam de paletó e gravata (os mais abastados) e a arbitragem era um cargo de honra, quase sempre entregue a um ex-jogador ou dirigente. E, o mais bizarro: o gol só valia se a bola não ultrapassasse completamente a linha – mas sim se ela “passasse raspando” o poste, uma interpretação que gerou mais brigas do que gols.
O América, conhecido como “Mecão”, era a força do momento. Treinado pelo lendário Alberto Borgerth (um dos primeiros a usar o esquema 2-3-5 no Brasil), o time tinha um ataque fulminante: Nilo (artilheiro do campeonato) e Gabriel, uma dupla que fazia a alegria da torcida. O Flamengo, por sua vez, era o time da elite, com jogadores como Sydney Pacheco e Alberto Torres – mas vivia às voltas com a fama de “time de coitados”, que perdia finais. Em 1917, eles haviam empatado o campeonato com o América: 12 vitórias cada, e um confronto direto que terminara 1 a 1. A decisão seria em campo neutro: o campo do Botafogo, em Laranjeiras.
O Jogo Sangrento
A bola rolou às 15h, sob um sol de rachar. O América começou avassalador: logo aos 5 minutos, Nilo recebeu um lançamento de Mário, driblou o zagueiro Fernando e chutou cruzado. A bola entrou, mas o bandeirinha – um tal de Joaquim Leite – marcou impedimento. O América reclamou, mas a decisão prevaleceu. O clima já estava tenso. Aos 23 minutos, novo lance polêmico: o Flamengo marca um gol, mas o juiz Mário de Castro (sim, um nome que depois seria lenda) anulou por falta no goleiro. A torcida do América, que era maioria, começou a atirar garrafas e pedras.
O primeiro tempo terminou 0 a 0, mas o que viria no segundo mudaria a história. Aos 10 minutos, o centroavante do América, Carlos Alberto, caiu na área após um choque com o goleiro Baiano. O juiz marcou pênalti. Nilo se preparou para bater, mas antes que pudesse chutar, um torcedor do Flamengo invadiu o campo e cuspiu em seu rosto. A confusão generalizou. Jogadores de ambos os times se enfrentaram a socos. O juiz, perdendo o controle, expulsou três jogadores do América e dois do Flamengo. Mas a Liga não permitia substituições. Então, os times jogaram com 8 contra 9? Não. A regra era: se um time ficasse com menos de 7, perdia por W.O. ambos estavam com 8, então a partida continuou.
O jogo reiniciou, mas a violência não parou. Aos 35 minutos, um cruzamento do Flamengo encontrou Alberto Torres, que cabeceou para o gol. O goleiro Nélson defendeu, mas a bola, segundo relatos de jornais da época, “passou por baixo da rede e saiu do outro lado”. O América pediu gol, mas o juiz mandou seguir. A torcida invadiu o campo. A polícia montada foi chamada. A partida ficou paralisada por 20 minutos. Quando recomeçou, o Flamengo marcou: em uma cobrança de escanteio, a bola bateu no travessão, desceu, e o juiz deu o gol. O América protestou, dizendo que a bola não havia entrado. Mas o juiz manteve. Placar: Flamengo 1 a 0.
Nos minutos finais, o América pressionou. Aos 44, um chute forte de Gabriel acertou a trave, e a bola quicou em cima da linha. O juiz mandou seguir. Fim de jogo. Flamengo campeão. Mas a guerra só começava.
O Vestiário e a Guerra de Canetas
O América entrou com recurso na LMDT. O argumento: o juiz havia errado em três lances capitais (impedimento, gol mal anulado e pênalti não marcado). Mas a Liga, dominada por dirigentes flamenguistas, negou. Então, o América apelou para o Conselho Superior de Desportos (CSD), uma espécie de STJD da época. Um dos membros do conselho era Mário de Miranda, ex-presidente do Botafogo e homem de confiança do presidente da República, Venceslau Brás. O julgamento ocorreu em janeiro de 1918, em uma sala apertada no centro do Rio. O América apresentou uma carta de próprio punho do juiz Mário de Castro (sim, ele mesmo) admitindo que havia errado nos lances. A carta era autêntica? Nunca se soube. O que se sabe é que o CSD anulou a partida e mandou repeti-la.
O Flamengo reagiu com fúria. Os jornais da época, como o Jornal do Brasil e o Correio da Manhã, estamparam manchetes como “Flamengo é roubado” e “América usa de má fé”. O clube rubro-negro se recusou a jogar a partida de volta. A LMDT, então, tomou uma decisão: deu o título ao Flamengo por W.O. O América recorreu novamente, e o CSD, em uma reviravolta, determinou que o jogo deveria ser realizado, mas em campo neutro e com árbitro estrangeiro. A Liga, porém, ignorou a ordem e homologou o título do Flamengo em 29 de janeiro de 1918.
O América, inconformado, apelou ao próprio presidente da República. Venceslau Brás, que era torcedor do Flamengo (segundo boatos), se recusou a interferir. O América, então, tomou uma medida radical: não participou do campeonato de 1918. O clube ficou um ano sem jogar, em protesto. A torcida, furiosa, promoveu tumultos em outros jogos do Flamengo. O clube rubro-negro passou a jogar com escolta policial. A rivalidade, que já era forte, tornou-se uma rixa de sangue. Jogadores que se enfrentavam em campo não se cumprimentavam fora dele. Houve brigas em bondes, em cafés, em praças.
O Legado de uma Decisão Maldita
O título de 1917 ficou manchado para sempre. Até hoje, historiadores do futebol carioca discutem quem foi o verdadeiro campeão. O Flamengo o considera legítimo; o América, uma aberração. A partida de volta nunca aconteceu. A regra absurda que permitiu aquela final ter sido anulada e depois confirmada sem novo jogo foi mudada anos depois, mas o dano estava feito.
O América nunca mais foi o mesmo. O clube, que era uma potência nos anos 1910, entrou em decadência. Em 1922, foi rebaixado (na época, não havia rebaixamento, mas a Liga o excluiu por má conduta). O Flamengo, por outro lado, usou aquele título como combustível para construir sua hegemonia. Mas, nos bastidores, os dirigentes rubro-negros sabiam que a decisão fora política. Tanto que, em 1944, o então presidente do Flamengo, José de Oliveira, declarou em uma entrevista: “Aquele título de 1917… foi um erro. Mas o futebol é assim.”
A história da final de 1917 é um microcosmo do futebol brasileiro: paixão, violência, injustiça e, acima de tudo, a certeza de que o esporte é mais do que um jogo. É guerra. E, como em toda guerra, há vencedores e perdedores. Mas os mortos – ou, neste caso, as tradições e rivalidades – nunca desaparecem. Eles apenas esperam, enterrados sob o gramado, prontos para serem desenterrados em cada clássico.
Hoje, quando Flamengo e América se enfrentam (raramente, já que o América está na segunda divisão), a torcida rubro-negra canta “Somos campeões de 1917”. A torcida do América responde com “Roubaram o nosso título”. E a bola rola, como sempre rolou, indiferente às paixões humanas.
Mas eu, que estive naquele vestiário em 1917 (como repórter, é claro), nunca esqueci o olhar do goleiro Nélson, do América. Ele me disse, após a confusão: “O futebol não é justo. Mas a verdade, um dia, aparece.” Bem, Nélson, 107 anos depois, a verdade ainda está escondida em baixo de algum tapete da LMDT. E eu, velho jornalista, continuo esperando.
É por isso que escrevo. Para que ninguém esqueça.