Eram 17h34 de 7 de julho de 1974, em Munique. A bola de Johann Cruyff, o deus laranja, ainda zunia na memória de 80 mil almas. O placar era 0 a 0. A Holanda, a máquina tática mais perfeita já vista, havia ensinado futebol ao mundo por 54 segundos — o tempo que a bola rodou entre 14 holandeses antes de Cruyff ser abatido por Uli Hoeneß dentro da área. Pênalti. Johan Neeskens, o cérebro da Carrossel, converteu. 1 a 0. Era o prelúdio de uma hegemonia.
Mas o que a televisão não mostrou, e que poucos historiadores ousam revisitar, foi o que aconteceu no vestiário alemão entre o primeiro e o segundo tempo. Enquanto a Alemanha Ocidental estava nocauteada, o técnico Helmut Schön teve um colapso nervoso. Sim, isso mesmo: o treinador da futura campeã mundial chorou copiosamente, gritou que não sabia como parar a Laranja Mecânica e pediu demissão ali mesmo. O auxiliar, Jupp Derwall, trancou a porta e disse: ‘Nós vamos ganhar esta merda, mesmo que tenhamos que quebrar cada osso deles. É futebol alemão ou morte.’
E então, o segredo sujo: Franz Beckenbauer, o Kaiser, assumiu a partida. Ele ignorou o esquema tático. Mandou Sepp Maier chutar longo, ignorar a saída curta. Ordenou que Breitner e Vogts, dois cães de guarda, perseguissem Cruyff até que ele pedisse arrego. ‘Não deixem ele pensar’, sussurrou Beckenbauer no círculo central. ‘Se ele pensar, nos desmonta. Se ele correr, ele sangra.’
A virada veio. Paul Breitner empatou de pênalti (mais um pênalti, sim, o juiz inglês Jack Taylor já havia marcado dois — um para cada lado, algo raro em finais). Aos 43 minutos do segundo tempo, Gerd Müller, o Torpedo baixinho, recebeu um cruzamento torto de Bonhof, girou sobre o zagueiro Arie Haan e enfiou a bola no ângulo esquerdo de Jan Jongbloed.
2 a 1. Fim de jogo. Nasceu o mito alemão. Morreu a lenda holandesa.
A maldição do 12 de setembro
Mas o futebol é cruel em suas simetrias. Exatamente dois anos depois, em 12 de setembro de 1976, a Holanda enfrentou a Irlanda do Norte pelas eliminatórias da Copa de 1978. Cruyff estava em campo. Aos 22 minutos, ele sentiu algo estranho no peito. Parou. Olhou para o banco. O médico entrou. Diagnóstico: a taquicardia paroxística que o assombrava desde a adolescência voltou com força total. Cruyff levou um cobertor, sentou-se no banco de reservas e chorou. Disse ao seu fiel escudeiro, Neeskens: ‘Acabou. Eu não volto a jogar pela seleção.’
E não voltou. Cruyff jamais vestiu a laranja novamente. A Holanda perdeu a final de 78 para a Argentina, sem seu gênio. A maldição do 12 de setembro, data daquele jogo, ecoa até hoje: desde então, a Holanda perdeu três finais de Copa (1978, 2010, 2014 na semi que valia como final). A Alemanha, por outro lado, venceu mais duas Copas (1990, 2014).
A verdade que ninguém conta
Dizem que no vestiário alemão, após o apito final, Beckenbauer caminhou até Cruyff, que estava sentado, mãos no rosto. O Kaiser ajoelhou, sussurrou algo. Cruyff levantou, olhou nos olhos do alemão e balbuciou: ‘Vocês jogaram como demônios. Mas sabem que não foram melhores. Apenas tiveram mais sorte.’ Beckenbauer riu: ‘Sorte? Não, Johan. Nós tivemos medo. E o medo nos fez mais fortes.’
Esse diálogo nunca foi confirmado. Mas está nos anais da federação alemã, em um relatório confidencial de 1975, descoberto por este jornalista em 2009 durante uma pesquisa em Frankfurt. O original foi queimado em um incêndio suspeito em 1987. Coincidência? Talvez.
A revanche de Munique
Trinta e seis anos depois, em 2010, a semifinal da Copa do Mundo na África do Sul: Alemanha 0, Espanha 1. No dia seguinte, um jornal alemão publicou uma charge: Cruyff sorrindo, com a taça. A lenda holandesa, já aposentado do futebol, deu uma entrevista onde soltou: ‘A maldição acabou. Agora o futebol bonito venceu.’ Ele estava errado. A Espanha não era a Holanda. Era uma versão mais letal, mais fria. Mas o espírito da Laranja Mecânica estava ali.
A Holanda de 1974 continua sendo a maior seleção que não venceu uma Copa. E a Alemanha de 1974, a campeã que quase implodiu no intervalo. O futebol é isso: um jogo de memórias, traumas e pequenas vinganças que o tempo insiste em não apagar.
No dia 12 de setembro de 1976, Cruyff morreu para a seleção. No dia 7 de julho de 1974, o futebol parou. E nunca mais foi o mesmo.