Era uma tarde de quarta-feira de junho de 2012, e a redação da Gazeta Esportiva fedia a café requentado e ansiedade. A manchete do dia seguinte estava praticamente escrita: “Palmeiras contrata meia argentino de 35 anos para a Série B”. O fax (sim, ainda usávamos fax) com a assinatura do contrato de Daniel Carvalho, vindo do Atlético-MG, estava sobre a mesa do editor-chefe. Era tiro certo. Ou não.
O telefone tocou. Era um contato dentro do clube, um segurança do vestiário que eu cultivava havia anos. A voz, um sussurro seco: “Esquece o Daniel. O moleque da base, o Patrick, vai subir. E o Kleina pediu um volante que ninguém conhece: um paraguaio que jogava no Toluca. Manteiga na mão, hein?” Desliguei. O interino Gilberto Kleina, recém-promovido após a demissão de Scolari, estava prestes a dar um nó no mercado. Mas ninguém sabia. Nem a diretoria.
Essa é a história não contada de como Kleina, um técnico sem currículo de peso, usou o submundo das transmissões esportivas – um telefonema vazado de um repórter de campo para um dirigente – para costurar uma negociação sigilosa. O meia argentino era uma cortina de fumaça. Enquanto a imprensa corria atrás de Daniel Carvalho, Kleina fechava com José María Basualdo, um volante uruguaio de 33 anos, indicado por um olheiro que era primo de um comentarista da Rádio Bandeirantes. O negócio foi selado em uma reunião no estacionamento do Palestra Itália, sem papéis, sem fotógrafos. Apenas um aperto de mão e a promessa de que o jogador seria inscrito no BID na sexta-feira, às 17h – horário em que os jornalistas já estariam fechando suas edições.
A tática de Kleina era um 4-2-3-1 com os dois volantes flutuando para os lados, algo que ele havia copiado de um DVD do Elche de 2008. Basualdo era a peça-chave: um cão de guarda que fazia a cobertura dos laterais, liberando Marcos Assunção para lançar. Mas o que ninguém viu foi o pulo do gato nos bastidores: Kleina pediu ao presidente Arnaldo Tirone que “vazasse” o interesse em Daniel Carvalho para a Gazeta, enquanto ele negociava Basualdo. Uma jogada de mídia digna de um agente duplo. A redação caiu como um patinho. No dia seguinte, enquanto todos perguntavam sobre o meia argentino na coletiva, Kleina apenas sorriu e disse: “Futebol é timing. E o nosso timing é outro.”
O vestiário, naquele ano, era um campo de batalha paralelo. Valdivia, o Mago, vivia às turras com o preparador físico, que o chamava de “Falso Mago” – apelido cunhado por um locutor da Rádio Jovem Pan. A crise foi abafada com uma multa de 50% do salário, em dinheiro vivo, entregue em um envelope pardo dentro do vestiário, após uma vitória por 3 a 0 sobre o Avaí. O segurança que me ligou viu tudo. E eu jamais publiquei. Por quê? Porque a ética do jornalista de bastidor é saber o que soltar e o que guardar. Guardei a história até hoje.
Os números daquela Série B são frios: 22 vitórias, 8 empates, 8 derrotas, 63 gols marcados. Mas o mercado de transferências teve seu próprio placar: Kleina contratou Basualdo por 150 mil dólares – um terço do que custaria um argentino mediano. O volante uruguaio fez 32 jogos, com 3 gols e 2 assistências. Mas seu maior feito foi ter desviado a atenção da imprensa, permitindo que o time se estruturasse taticamente sem holofotes.
Anos depois, em 2019, encontrei Kleina em um bar em Água Branca. Ele ria: “Você sabia? Aquele Daniel Carvalho nem sabia que estava sendo usado. O agente dele ligou para o presidente, e nós deixamos rolar. O negócio fechado, mesmo, foi o Basualdo no estacionamento. Futebol é isso: uma dança entre o que se diz e o que se faz.”
Essa crônica não é sobre o Palmeiras campeão da Série B. É sobre como um interino, um fax, um telefonema e um segurança transformaram uma redação em plateia de uma peça que ninguém sabia que estava sendo encenada. O gramado importa, sim. Mas o campo invisível dos bastidores decide quem vive ou morre antes mesmo da bola rolar.