O Dia em que o Lixo da Globo Quase Engoliu o Vestiário: Bastidores da Revolução Silenciosa da Central de Jogos

O bebedouro de aço inox da Central de Jogos, na sede da Globo em São Paulo, nunca mais foi o mesmo depois daquela quinta-feira de março de 2018. A água gelada, que antes servia para aliviar a garganta dos narradores, tornou-se testemunha líquida de um segredo que quase implodiu o maior programa esportivo da televisão brasileira. Era para ser só mais uma reunião de pauta. Mas quando o diretor de esportes, Ali Kamel, entrou na sala com um envelope pardo embaixo do braço, até o silêncio ficou constrangido. Ele sabia. Nós sabíamos que ele sabia. E o que estava naquele envelope era uma bomba: a íntegra de conversas de WhatsApp extraviadas de um dos principais apresentadores do programa, revelando um plano secreto para boicotar a cobertura de uma partida do Santos, em retaliação a uma reportagem que havia desancado o clube na semana anterior.

O ar condicionado parecia ter sido desligado. Suor escorria pelas costas de todos, até dos mais cascudos. O produtor-executivo, um homem de 50 anos, fumava um cigarro atrás do outro no corredor, algo que não fazia desde o fim do ‘Jornal Nacional’ nos anos 90. Ninguém falava nada. A única coisa que se ouvia era o ruído do projetor de vídeo, que exibia em câmera lenta o replay de uma disputa de bola na lateral – imagem que, ironicamente, parecia mais emocionante que a guerra fria dentro daquela sala.

Eu estava ali, como repórter setorista da Central de Jogos há mais de uma década. Vi de perto a ascensão do programa, que começou como uma aposta modesta em 2009, num estúdio improvisado no Jardim Botânico, com direito a piso de borracha e cadeiras de plástico. A ideia era simples: transmitir ao vivo, todas as noites, os melhores lances dos jogos do dia, com análises rápidas e um toque de humor. Mas o que ninguém contava – e a Globo menos ainda – era que o programa se tornaria um fenômeno de audiência, alcançando picos de 20 pontos no Ibope e virando referência para torcedores e jornalistas. Só que por trás das câmeras, o clima era de terror. Chefes que gritavam, editores que choravam no banheiro e uma guerra fria entre os apresentadores que fazia o Fla-Flu parecer amistoso.

A Revolução Silenciosa de 2009: Como a Central Virou o Centro do Universo Esportivo

Para entender o tamanho do estrago que o envelope poderia causar, é preciso recuar no tempo. Em 2009, o esporte na TV aberta brasileira estava estagnado. Os programas se resumiam a mesas redondas engravatadas e boletins informativos. A Globo, que detinha os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro desde 1998, precisava de um produto novo, que dialogasse com a torcida jovem que já consumia futebol na internet. A Central de Jogos nasceu como um laboratório, sob o comando do então diretor de esportes, Carlos Fernando. A ideia era importar o modelo dos programas esportivos dos Estados Unidos, como o SportsCenter, da ESPN, mas com a ginga brasileira. O formato era enxuto: mesa redonda com três comentaristas, um apresentador, e muitas imagens de arquivo. A primeira atração foi ao ar em 15 de março de 2009, com a locução de Cléber Machado e os comentários de Paulo Vinícius Coelho e Juca Kfouri. A repercussão foi imediata. Os torcedores adoraram a linguagem despojada, as brincadeiras com os meme e a coragem de criticar todo mundo, inclusive a própria Globo. Mas os bastidores eram um campo de batalha.

O principal ponto de tensão era a relação entre os apresentadores e a direção de jornalismo. Enquanto a Globo queria um tom mais informativo e corretório, os apresentadores, liderados por Tiago Leifert, preferiam o improviso e a irreverência. Leifert, que havia saído da Record em 2010 para comandar o programa, era uma figura polarizadora. Carismático para o público, mas visto como arrogante nos corredores. Certa vez, em 2012, ele quebrou um tablet ao vivo, durante uma reclamação sobre a qualidade da transmissão. O gesto viralizou, mas gerou um memorando interno de mais de três páginas, proibindo qualquer ato de agressão a equipamentos. A tensão aumentou quando, em 2015, a Globo perdeu os direitos do Campeonato Brasileiro para a RedeTV! e o Esporte Interativo. A Central de Jogos perdeu o carro-chefe. A audiência caiu. E a crise se instalou de vez.

O Pior Pesadelo de um Jornalista: Quando o Furo de Reportagem É Contra Você

Voltemos àquela quinta-feira fatídica. O envelope pardo continha prints de conversas de WhatsApp entre um apresentador e um assessor de imprensa de um grande clube paulista. O teor era explosivo: o jornalista combinava com o assessor como manipular a cobertura do programa, favorecendo o clube em troca de informações exclusivas e acesso privilegiado a jogadores. A pauta daquela noite, que incluía uma reportagem sobre as dívidas do clube, seria substituída por um perfil elogioso do novo técnico. O diretor, Kamel, estava furioso. Não só pela quebra de ética, mas porque a Globo tinha uma política rígida de independência editorial – pelo menos no discurso. A reunião durou quatro horas. Houve gritos, lágrimas e ameaças de demissão. No fim, o apresentador foi suspenso por duas semanas e a pauta foi mantida. Mas o estrago estava feito. A confiança entre a equipe nunca mais se recuperou.

Eu, como jornalista, fiquei dividido. De um lado, a ética profissional me obrigava a denunciar o caso. De outro, a lealdade aos colegas me impedia de jogar mais gasolina na fogueira. Afinal, quem nunca fez um acordo com uma fonte para conseguir um furo? A diferença é que ali, o acordo era para abafar uma história negativa. O que me incomodou mais foi a hipocrisia. A Globo, que tanto se orgulhava de seu jornalismo isento, estava prestes a abafar um escândalo interno para proteger sua imagem. Foi ali que percebi que o jornalismo esportivo, na essência, é feito de concessões. O que a torcida vê na telinha é a ponta do iceberg. Debaixo d’água, há interesses de toda ordem: dinheiro, poder, ego.

O Legado e a Ferida Aberta: Lições de uma Guerra Fria Televisiva

Hoje, a Central de Jogos ainda está no ar, mas já não é mais a mesma. A saída de Tiago Leifert em 2021, para o Big Brother Brasil, marcou o fim de uma era. O programa perdeu a acidez e o improviso, transformando-se em algo mais pasteurizado, enquadrado nos padrões da Globo de ‘bom mocismo’. Mas a ferida do episódio do envelope nunca cicatrizou totalment. Ainda ouço, de vez em quando, nos corredores, conversas sussurradas sobre ‘o dia em que quase perdemos tudo’. O bebedouro de aço inox, que já viu tanta gente desabafar, continua ali, mudo. Mas eu sei que ele guarda segredos que nem o envelope pardo ousou conter.

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