O Dia em que o Santos de Pelé Desbancou o Benfica de Eusébio: A Final Intercontinental de 1962

Introdução: Uma Noite Mágica no Maracanã

Era 11 de outubro de 1962. O Maracanã, com seus mais de 90 mil espectadores, pulsava em uma mistura de ansiedade e euforia. O Santos de Pelé, o Rei do futebol, enfrentava o Benfica de Eusébio, a Pantera Negra, em uma partida que decidiria o campeão intercontinental. Muito mais do que um jogo, era um duelo entre dois gênios, dois estilos de jogar futebol.

O Benfica havia vencido a primeira partida em Lisboa por 3 a 2, numa atuação avassaladora de Eusébio, que marcou dois gols. A volta, no Rio, pintava um cenário de pressão total sobre o Santos. Mas nos bastidores, histórias curiosas fervilhavam. O técnico santista, Lula, havia promovido um treino secreto com jogadas ensaiadas, enquanto Pelé, com apenas 21 anos, carregava nas costas a esperança de um país.

O Início do Jogo: A Sinfonia Santista

O Santos entrou em campo com uma missão clara: virar o placar. Aos 14 minutos, Dorval abriu o marcador, após uma troca de passes que desmontou a defesa portuguesa. O Maracanã veio abaixo. O Benfica tentou reagir, mas o meio-campo santista, com Zito e Mengálvio, anulava as investidas. Aos 25, Coutinho, o parceiro de ataque de Pelé, ampliou: 2 a 0.

Eis que surge a primeira grande curiosidade: o goleiro do Santos, Gilmar, teria enfrentado Eusébio algumas vezes antes, em amistosos internacionais, e guardava um segredo. Ele estudava os movimentos do atacante, sabia que Eusébio preferia chutar cruzado. Isso fez diferença em um lance aos 35 minutos, quando Eusébio, livre, finalizou e Gilmar fez uma defesa milagrosa. O jornalista esportivo Armando Nogueira, em sua crônica, chamou aquela defesa de “a mão de Deus antes de Maradona”.

O Show de Pelé

O segundo tempo foi o palco de Pelé. Aos 15 minutos, ele recebeu um lançamento de Calvet, dominou no peito, girou e chutou no ângulo. 3 a 0. O Benfica, desorientado, via seu sonho ruir. Mas Eusébio, em um lampejo de genialidade, diminuiu com um chute violento de fora da área. 3 a 1. A tensão voltou ao Maracanã.

Nos vestiários, contam os historiadores, Pelé teria dito aos companheiros: “Vamos fazer mais dois, para não ter erro”. E assim foi. Aos 35, Pelé tabelou com Coutinho e, de letra, encobriu o goleiro Costa Pereira. 4 a 1. Para fechar, Zito, de cabeça, após escanteio, fez o quinto. 5 a 2 no agregado, Santos campeão intercontinental.

Os Bastidores: Uma Viagem de Navio e Superstições

Uma das histórias mais curiosas dessa final envolve a viagem do Santos para Portugal. O time viajou de navio, em uma travessia de dez dias. Durante a viagem, Pelé e Coutinho disputavam partidas de pingue-pongue para passar o tempo. Segundo relatos, Pelé perdeu apenas uma vez, e ficou tão irritado que passou a noite treinando. Já o técnico Lula, supersticioso, usava o mesmo terno surrado em todos os jogos – e o terno fedia a suor, mas ninguém ousava reclamar.

Do lado do Benfica, Eusébio carregava uma medalhinha de Nossa Senhora de Fátima, presente de sua mãe. Antes do jogo no Maracanã, ele a teria perdido nos vestiários, e só a encontrou após um roupeiro revirar todo o saco de roupas. A superstição parecia prenunciar o resultado: sem o amuleto, o astro português teve atuação apagada.

O Legado: Mais que uma Final, um Símbolo

O que muitos não sabem é que, após a conquista, o Santos realizou uma excursão pela Europa, jogando 12 partidas em 30 dias. Nessa turnê, Pelé marcou 20 gols, consolidando sua lenda. A final intercontinental de 1962 não foi apenas um título; foi a afirmação do futebol brasileiro como potência mundial.

Hoje, ao revisitar esses fatos, vemos como aquele jogo marcou gerações. Dados estatísticos surpreendentes mostram que, até hoje, nenhum time brasileiro repetiu o feito com tamanha autoridade. E, em cada canto do Brasil, ainda se contam histórias daquele 11 de outubro, quando o Rei e a Pantera se encontraram, e o futebol ganhou mais um capítulo de sua rica história.

Para os amantes do esporte, entender essas trajetórias lendárias é mergulhar em um universo de paixão, tática e, acima de tudo, humanidade. Porque, no fim, o que fica são os relatos de um tempo em que o futebol parecia mais poesia do que ciência.

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