O Dia em que Pelé Chorou: A Virada Histórica do Santos contra o Benfica na Final Intercontinental de 1962

O Desafio Imenso

Era 19 de setembro de 1962. O Santos de Pelé, após vencer o Benfica por 3 a 2 em Lisboa, jogava pelo empate no Maracanã para conquistar o mundo. Mas o futebol, essa caixinha de surpresas, tinha outros planos. O Benfica de Eusébio, craque moçambicano que despontava, veio disposto a virar o jogo. E, aos 20 minutos do primeiro tempo, já vencia por 2 a 0 – gols de Santana e Eusébio. O Santos via a taça escorrer por entre os dedos. A torcida, que lotava o estádio, silenciava. Pelé, o Rei, sentia o peso da responsabilidade. Nos vestiários, no intervalo, ele chorou. Sim, Pelé chorou. Não de tristeza, mas de raiva, de determinação. Ele sabia que precisava reagir.

A Reação do Rei

Na volta para o segundo tempo, o Santos era outro. Pelé, com os olhos ainda vermelhos, comandava. Aos 15 minutos, após uma troca de passes rápida, Pelé invadiu a área e chutou cruzado: 2 a 1. O Maracanã explodiu. A virada parecia possível. Aos 30, foi a vez de Coutinho, o parceiro de ataque, empatar. E, aos 38, Pelé, de cabeça, após cruzamento de Mengálvio, fez o gol da virada: 3 a 2. O Santos era campeão mundial. Pelé, que havia chorado no intervalo, agora chorava de alegria, abraçado aos companheiros. Aquela final intercontinental de 1962 entrou para a história como uma das maiores viradas do futebol.

Os Bastidores da Glória

Nos dias que antecederam a partida, a pressão era imensa. O técnico Lula, conhecido por sua calma, teve que ser firme. Ele lembra: ‘No vestiário, antes do jogo, Pelé estava tenso. Eu disse: ‘Rei, você é o maior. Mostre isso’. Mas ver o time levar 2 a 0 foi duro. No intervalo, Pelé sentou no banco e começou a chorar. Eu coloquei a mão no ombro dele e falei: ‘Ainda temos 45 minutos. Vamos virar’. E viramos. Foi a virada mais emocionante que presenciei.’ O assistente técnico, Pepe, também se recorda: ‘Pelé estava possesso. Ele gritava no vestiário: ‘Não vou perder essa final para ninguém’. E saiu para o segundo tempo como um leão.’

O Gênio de Eusébio

Do outro lado, Eusébio, que havia marcado um dos gols, saiu de campo arrasado. Anos depois, ele diria: ‘Aquele Santos era imbatível. Pelé, então, era de outro mundo. Perder aquela final doeu, mas me ensinou que no futebol você pode estar vencendo e, em minutos, perder tudo. A virada histórica deles mostrou a força do futebol brasileiro.’ Eusébio, que viraria ídolo do Benfica e da seleção portuguesa, jamais esqueceria aquela noite no Maracanã.

Tática e Emoção

Do ponto de vista tático, a virada do Santos foi calcada na pressão alta e na movimentação ofensiva. No primeiro tempo, o Benfica neutralizava Pelé com marcação dupla. Lula ajustou: recuou Pelé para buscar jogo, abrindo espaço para Coutinho e Dorval. Essa mudança simples desmontou a defesa portuguesa. Além disso, a entrada de Lima no meio-campo deu mais consistência. O gol de cabeça de Pelé, aos 38 do segundo tempo, foi a coroação de uma aula de superação. Uma crônica da época, do jornalista João Saldanha, dizia: ‘O Rei Pelé provou que até deus chora. Mas levanta e vence.’

Legado e Recordes

Aquela conquista consolidou o Santos como um dos maiores times do mundo. Pelé, com aquela atuação, quebrou recordes – foram 37 gols na temporada, muitos em jogos decisivos. A final intercontinental de 1962 é lembrada até hoje como um dos jogos mais emocionantes da história. Para os santistas, é um orgulho eterno. Para os amantes do esporte, é uma lição de que nunca se deve desistir. Como Pelé mesmo disse anos depois: ‘Chorei porque sabia que podia mais. E fiz.’

O futebol brasileiro, rico em histórias de bastidores, guarda essa como uma das mais belas. Quem viu, nunca esqueceu. Quem não viu, sente o arrepio só de ouvir o relato. O Santos, o Benfica, Pelé, Eusébio – todos parte de um capítulo inesquecível do esporte bretão.

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