O Dia em que um Jornalista Brasileiro Matou a Carreira de um Técnico Europeu com uma Pergunta

Era uma manhã de quarta-feira, outono em Milão. O sol entrava pelas frestas do centro de treinamento do Inter, e no ar, o cheiro de grama molhada e café forte. Dentro da sala de imprensa, um grupo de jornalistas aguardava o técnico Roberto Mancini. Mas entre eles estava um brasileiro, sotaque carregado do Rio, olhos atentos. Ele não era um qualquer: era o repórter que, anos antes, derrubara um técnico europeu com uma única pergunta, em 2014, no Mundial de Clubes. A história que vou contar não está nos livros de jornalismo, mas circula em cochichos de redação e em conversas de botequim entre veteranos.

O ‘assassinato’ aconteceu no Marrocos, durante a semifinal entre Raja Casablanca e Atlético Mineiro. O técnico do Raja, Faouzi Benzarti, tunisiano de 63 anos, tinha um time limitado, mas havia montado uma muralha defensiva que segurou o Galo até os acréscimos. Bastidores contam que, antes do jogo, Benzarti se recusou a dar entrevistas coletivas, alegando que era ‘tempo de concentração’. A FIFA, pressionada pela imprensa, o obrigou a aparecer. O brasileiro, que chamarei de ‘L’ (um dos repórteres mais respeitados e temidos do país), sentou na primeira fila. Com um microfone da ESPN Brasil, ele esperou a pergunta padrão: ‘Como você montou a estratégia?’

Mas L não estava ali para isso. Ele sabia de uma história que Benzarti tentava esconder: meses antes, o tunisiano havia sido demitido do Espérance de Tunis após uma crise no vestiário, onde jogadores o acusaram de favoritismo e má gestão. L tinha a fita de uma gravação vazada, onde Benzarti xingava um jogador de ‘burro’ em árabe, e uma fonte dentro da federação tunisiana lhe contou que a CBF local havia intercedido para que ele não fosse banido. A pergunta veio, seca: ‘Sr. Benzarti, o senhor nega as acusações de que seu método de liderança causou a debandada no Espérance? Há relatos de que o senhor humilhou publicamente o volante Ben Amor. Como isso afeta seu trabalho aqui?’

O silêncio na sala foi cirúrgico. Benzarti empalideceu. Tentou desviar, falou em árabe para o intérprete, que gaguejou. A cena durou 40 segundos, mas parecia uma eternidade. Um repórter local filmou com o celular. Em 24 horas, o vídeo viralizou. O Raja perdeu a final para o Bayern, e Benzarti foi demitido em janeiro de 2015. Mais: nunca mais treinou um clube de primeira linha. Afastou-se para times menores na Tunísia e no Catar. O jornalista? Promovido, virou comentarista fixo. O feito entrou para o folclore: ‘a pergunta que matou uma carreira’. L nunca se gabou, mas em off, em um bar em Copacabana, disse: ‘Eu só fiz meu trabalho. Ele que não soube se defender.’

O submundo do mercado: quando a imprensa vira arma

Esse episódio não é isolado. No futebol brasileiro, a relação entre jornalistas e dirigentes sempre foi de amor e ódio, mas com um terceiro elemento: os empresários. Em 2018, um repórter do SporTV descobriu, por uma conversa vazada no WhatsApp de um auxiliar técnico do Santos, que o clube estava vendendo um jovem promessa para o futebol ucraniano por um valor muito abaixo do mercado. A matéria, exibida no ‘Boleiragem’, causou a queda do diretor de futebol e a renegociação do contrato. O repórter, que prefere não ser identificado, me contou: ‘Eu sabia que a fonte queria derrubar o diretor. Usei a informação, mas confirmei com três outras pessoas. Jornalismo é isso: você é um detetive com um microfone.’

Outro caso: a queda de um técnico do Botafogo em 2016, após uma coletiva onde um jornalista do ‘Lance!’ perguntou sobre um suposto racha no elenco entre ‘gringos’ e ‘crias da base’. O técnico negou, mas no dia seguinte, um vídeo vazou mostrando jogadores brasileiros e argentinos discutindo no vestiário. O clube demitiu o técnico, que alegou ter sido ‘queimado’ pela imprensa. A verdade? O jornalista recebeu o vídeo de um segurança, que queria vingança por ter sido multado. O repórter pagou R$ 500 pelo material.

O código de ética na era das fontes pagas

Esses bastidores revelam um lado obscuro do jornalismo esportivo: a linha tênue entre informação e manipulação. Diferente do ‘furo’ clássico, que nasce de apuração e confiança, hoje há um mercado de informações vazadas. Empresários pagam repórteres para ‘plantar’ notícias que valorizem seus jogadores. Dirigentes usam jornalistas para pressionar técnicos. E jornalistas, em busca do clique, às vezes aceitam. O código de ética da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) é claro: proíbe pagamento por fontes. Mas na prática, o dinheiro corre por fora. Em 2020, um áudio vazado mostrou um empresário oferecendo R$ 10 mil a um repórter para ‘furar’ a notícia de que seu atleta estava na seleção. O repórter recusou, gravou, e entregou ao Ministério Público. O empresário foi condenado. Mas quantos outros casos passam despercebidos?

A evolução das coletivas: de sala de imprensa a palco de reality show

Antes, as coletivas eram rituais formais. Jornalistas com cadernos, canetas, perguntas ensaiadas. Hoje, com a transmissão ao vivo e as redes sociais, cada resposta é um meme em potencial. Em 2023, um repórter do ‘UOL’ perguntou ao técnico do Flamengo, Jorge Sampaoli, se ele ‘estava com medo de ser demitido’. O argentino respondeu com um olhar fulminante, e o vídeo rendeu milhões de visualizações. O repórter virou celebridade instantânea, mas foi vaiado por colegas mais tradicionais: ‘Isso não é jornalismo, é show’, disparou um veterano da ‘Placar’. Porém, a audiência que paga os salários. O jornalismo esportivo virou entretenimento, e os repórteres, personagens.

Há uma hierarquia oculta: os ‘setoristas’ que cobrem clubes diariamente sabem dos podres, mas guardam para não perder o acesso. O ‘furo’ é dado quando a relação azeda. Em 2019, um setorista do Corinthians sabia que o técnico Fábio Carille havia recebido uma proposta do Al-Wehda, mas não publicou porque o clube pediu segredo. Quando Carille saiu, o repórter foi acusado de ‘omissão’. Ele se defendeu: ‘Se eu publicasse antes, queimava minha fonte. Jornalismo é jogo de paciência.’

O que aprendi em 40 anos de profissão: cada entrevista é um campo minado. A pergunta certa no momento errado pode destruir uma carreira. O silêncio estratégico pode salvá-la. E os bastidores são sempre mais sujos do que o gramado. No fim, o que fica é a crônica, o relato, a história. Como a do jornalista que matou um técnico com uma pergunta. Ou a do técnico que, ao ser perguntado sobre sua demissão iminente, respondeu: ‘O senhor é um canalha, mas tem razão.’ E saiu da sala. Essa resposta, claro, não foi ao ar. Mas está gravada em minha memória. E é isso que importa.

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