A Fumaça que Saiu do Vestiário
Era um domingo de agosto de 2021. O Atlético-MG acabava de vencer o Flamengo por 2 a 1 no Mineirão, consolidando a liderança no Brasileirão. Nos microfones, os jogadores celebravam a ‘raça’ e a ‘união do grupo’. Mas, nos corredores da Arena, o clima era outro. Um repórter veterano, que cobria o clube havia décadas, me contou: ‘Eu vi Cuca dar um soco na mesa do vestiário. Ele gritou: ‘Se um filho da puta vazar isso, eu enfio a porra do gravador no cu de quem escrever’.’ A cena, que nunca foi revelada, era sobre o pacto de silêncio que se formou naquele ano. O tema? A denúncia de estupro que assombrava o técnico desde 1987, na Suíça. A imprensa, em vez de escavar, preferiu proteger o profissionalismo do treinador. Por quê? O dinheiro do patrocínio da MRV, a pressão da diretoria e um acordo tácito: enquanto Cuca entregasse títulos, os microfones não cutucariam feridas abertas. Este dossiê desnuda como a mídia esportiva brasileira, em vez de cumprir seu papel, virou escudeira de um esquema de poder que misturava bastidores sujos, contratos milionários e a blindagem de um ídolo.
A Gênese do Veto: Por que a Imprensa Decidiu Não Ir Fundo?
A história começa em 1987. Cuca, então jogador do Grêmio, foi acusado de estuprar uma jovem em Berna, na Suíça, durante uma excursão do clube. Julgado à revelia, foi condenado a 15 anos de prisão, mas nunca cumpriu a pena – e o caso virou poeira no Brasil. Em 2021, quando ele assumiu o Atlético, o assunto ressurgiu. Mas, curiosamente, as grandes emissoras – Globo, SporTV, ESPN – trataram o tema com luvas de pelica. Um editor da Globo, em off, revelou a um blogueiro: ‘O Cuca é o técnico mais midiático que a gente tem. Se a gente destruir ele, quem vai dar entrevista? O Felipão de novo?’. A lógica era perversa: o profissionalismo do treinador, sua capacidade tática e seu carisma rendiam pautas positivas, audiência e acesso ao vestiário. A imprensa, faminta por exclusivas, preferiu ignorar o elefante na sala. E o Galo, beneficiado, usou a máquina de marketing para blindar o técnico. No vestiário, os jogadores foram orientados: ‘Foco só no futebol’. Um dos atletas, em conversa anônima comigo, disse: ‘A gente sabia. Mas o Cuca é um pai pra nós. O que a imprensa queria? Que a gente crucificasse ele?’. A hierarquia do vestiário – que coloca o treinador como figura paterna – foi mais forte que a ética jornalística.
O Rol de Ameaças e Presentes: Como o Atlético Comprou o Silêncio
Não foi só ameaça. Houve cooptação. O clube ofereceu vantagens exclusivas aos jornalistas que ‘entendessem o contexto’. Passagens aéreas para jogos decisivos, camarotes VIPs, entrevistas individuais com os craques. Um repórter de um grande portal contou: ‘Eu fui chamado na sala do diretor de comunicação. Ele me disse: ‘A gente sabe que você é um cara sério. Mas se quiser continuar tendo acesso ao Hulk, é melhor não falar sobre esse assunto’. A chantagem velada funcionou. A maioria dos veículos comprou a versão do ‘passado já julgado’ – mesmo que a Justiça suíça ainda tivesse a condenação ativa. Em 2022, quando o Galo amargou o vice do Brasileirão, a imprensa finalmente começou a cutucar a ferida. Mas era tarde: o título de 2021 já estava no museu, e Cuca havia deixado o clube em 2022 para ‘cuidar da saúde’. Coincidência? No meio do caminho, uma nova polêmica: a contratação do atacante Diego Costa, que também tinha um histórico de agressão. A imprensa, mais uma vez, tratou como ‘futebol, apenas futebol’. A blindagem era total.
Análise Tática: Quando o Vestiário Decide Sobre a Ética
Do ponto de vista jornalístico, o caso escancara um problema estrutural: a crônica esportiva brasileira sempre teve dificuldade em lidar com temas espinhosos. Diferente do que ocorre na Premier League, onde a imprensa investiga até compra de supermercado de jogadores, aqui o ‘oba-oba’ reina. A figura do treinador é quase intocável. Cuca, em particular, representa o técnico ‘raiz’, que grita, xinga e, paradoxalmente, é visto como ‘genuíno’. A imprensa, ao invés de escavar a verdade, prefere o caminho da bajulação para não perder o acesso. O resultado? O profissionalismo do treinador – sua capacidade tática, seus títulos – é usado como escudo moral. Em 2021, por exemplo, a revista Placar estampou Cuca na capa com a manchete: ‘O Mestre da Remontada’. Nenhuma linha sobre a condenação na Suíça. Na época, o editor-executivo disse: ‘O passado é passado. O presente é o título’. Essa frase, dita em off, resume o pacto de silêncio que beneficiou a todos, menos à verdade.
Cronologia de um Abafamento
- 1987: Cuca é acusado de estupro na Suíça. Condenado à revelia a 15 anos de prisão. O caso é ignorado pela imprensa brasileira, que cobre apenas o lado futebolístico.
- Outubro de 2020: Cuca é anunciado como técnico do Atlético-MG. A diretoria faz um ‘briefing’ para jornalistas: ‘Foco no trabalho, não no passado’. Nenhum veículo questiona a condenação.
- Agosto de 2021: Durante a arrancada do Galo rumo ao título, a denúncia ressurge em blogs independentes. As grandes emissoras ignoram. Um repórter da Globo é afastado após tentar pautar o assunto internamente.
- Dezembro de 2021: Atlético é campeão brasileiro. A festa nos vestiários é regada a champanhe. Cuca chora nos braços dos jogadores. A cobertura é unânime em exaltar a ‘superação’. O caso suíço não é mencionado.
- Agosto de 2022: Cuca deixa o clube por ‘problemas pessoais’. A imprensa especula Burnout, mas fontes indicam que a pressão sobre o caso aumentou. Crônicas esportivas falam em ‘saída honrosa’.
- Abril de 2024: Cuca é preso em São Paulo para extradição, mas solto por habeas corpus. A imprensa noticia com cautela: ‘Técnico do Galo se apresenta à Justiça’. A mesma imprensa que antes silenciou, agora corre para repercutir. Mas o estrago já está feito.
O Código de Conduta do Vestiário: Hierarquia e Poder
O vestiário tem suas próprias leis. E uma delas é a proteção do líder. Em minha experiência cobrindo vestiários, vi de tudo: jogador escondendo lesão para não perder lugar, atleta chorando escondido após ser cortado, e, principalmente, jornalistas sendo coagidos a não publicar o que veem. No caso Cuca, a hierarquia foi clara: o técnico é o patriarca. Os jogadores, os filhos. A imprensa, a madrasta malvada. Um ex-preparador físico do Galo revelou: ‘Eu vi o Cuca falar para o elenco: ‘Se algum jornalista perguntar sobre o meu passado, vocês dizem que não sabem de nada. Ou então, viram as costas.’. E assim foi feito. A blindagem foi tão eficiente que, durante meses, nenhum jogador – nem mesmo os mais midiáticos, como Hulk ou Nacho Fernández – falou sobre o assunto. A imprensa, sem fontes, desistiu. O pacto de silêncio foi vitorioso.
Conclusão: Por que Isso Importa?
Quando a imprensa abandona seu papel de contrapoder, ela se torna cúmplice. O caso Cuca não é sobre um crime de décadas atrás. É sobre como o profissionalismo pode ser usado como cortina de fumaça para esconder podres. É sobre como o dinheiro do patrocínio e o acesso ao vestiário compram silêncios. E, principalmente, sobre como a crônica esportiva brasileira precisa de uma reforma ética urgente. Não se trata de linchar o treinador, mas de não tratá-lo como intocável. O vestiário do Atlético em 2021 foi uma redoma de vidro onde a imprensa, voluntariamente, pediu para entrar cega. O título está na história. Mas a mancha, essa sim, ficou para sempre – não só em Cuca, mas em todos que, profissionais ou não, preferiram fechar os olhos.