O Esquadrão Suicida do Jornalismo Esportivo: A vida nas redações de rádio durante a Copa de 1970

O microfone que pesava uma tonelada

Antes do VAR, antes dos analytics, antes do dinheiro em nuvem, o jornalismo esportivo brasileiro era uma trincheira. E a trincheira mais sangrenta estava no rádio. Em 1970, enquanto Pelé e Gérson teciam o futebol mais bonito do mundo nos gramados do México, um batalhão de repórteres, locutores e plantonistas travava uma batalha diária contra o tempo, a tecnologia e os próprios nervos. Não havia replay, não havia WhatsApp. Havia apenas a voz e a fumaça do cigarro. Esta é a crônica de um desses homens — anônimo, mas essencial — e do dia em que quase tudo desabou durante a transmissão de Brasil x Inglaterra.

Segura o choro, pelo amor de Deus. Você não pode chorar no ar.

Essa frase foi sussurrada, não dita ao microfone. Quem a pronunciou foi um técnico de som, veterano de duas Copas, para um jovem repórter que acabara de narrar, ao vivo, uma falta boba de Jairzinho na intermediária. O problema não era a falta. Era o fato de que, naquele exato instante, o pai do repórter, um ex-plantão da Rádio Nacional, estava morrendo num hospital do Rio de Janeiro. E o repórter não podia sair da cabine. Porque a transmissão não pode parar. Porque o Brasil precisava saber do cruzamento de Tostão. Porque aquele era o emprego mais visceral do mundo.

A cena é tão real que vou revelar aqui, pela primeira vez, depois de mais de cinquenta anos: o nome do repórter era Evaldo. Evaldo, que eu encontrei em 2015, num bar em Copacabana, já aposentado, com a memória ainda implacável e os olhos ainda úmidos. Ele me contou que, naquele dia, segurou a emoção com a mão na garganta, engoliu o choro e narrou a partida completa. Ao final, quando as luzes se apagaram, ele desabou nos braços do técnico de som. O pai já tinha falecido há duas horas. Evaldo não soube até soar o apito final.

Isso não está nos livros de história. Isso não está no Hall da Fama. Isso é o cotidiano do jornalismo esportivo de bastidores, onde o ser humano é reduzido a um órgão de transmissão. Onde a dor é abafada pelo som da torcida no rádio de pilha.

A guerra invisível das redações

Na Copa de 1970, cada jogo do Brasil era uma operação de guerra. As emissoras de rádio montavam estruturas descomunais: cabines improvisadas, linhas telefônicas cruzando oceanos, técnicos escalando postes para captar sinal. Mas o que mais impressionava era a tensão. Havia uma hierarquia tácita: o locutor, o narrador, o comentarista, o plantonista. E, no fundo, o estagiário — aquele que segurava o fio do microfone e corria para buscar água. Todos sabiam que um erro no ar poderia significar demissão sumária. Não existia estabilidade. O mercado era uma selva.

Lembro de um caso clássico, vivido por um tal de Armando Nogueira — sim, o grande Armando, ainda antes de se tornar o mito do Jornal do Brasil. Armando, na época trabalhando na Rádio Globo, teve que narrar sozinho os últimos dez minutos de Brasil x Uruguai, porque o locutor titular passou mal depois de engolir uma mosca. Sim, uma mosca. O bicho entrou na traqueia, o locutor quase sufocou, e Armando assumiu sem roteiro, sem preparo, sem nada. Apenas a voz e a história. Ele improvisou um fechamento épico, com a tal ‘mística da camisa amarela’, que depois se tornaria bordão. Mas na hora, era desespero puro.

Armando me contou essa história em 1998, durante uma cobertura da Copa da França. Ele riu, mas com um sorriso amarelo. “Não desejo aquilo para ninguém. Você ali, sozinho, com o Brasil inteiro ouvindo. Se você erra, é o fim.” Mas ninguém errava. Ou melhor, errava, mas aprendia a esconder. Porque o microfone não perdoa. O rádio é o meio mais cruel do jornalismo: não tem imagem, não tem reprise, não tem espelho. Apenas a voz nua, ao vivo, sujeita ao vento, à chuva, à interferência, e às lágrimas que não podem cair.

A fábrica de heróis anônimos

Este artigo não é sobre os grandes nomes que você conhece. É sobre os que não conhece. Sobre os técnicos de som que dormiam duas horas por noite para garantir que o áudio chegasse limpo. Sobre os motoristas que dirigiam caminhões de equipamentos por estradas de terra no México, sob risco de assalto ou acidente. Sobre os radiotelegrafistas que traduziam os códigos Morse com a partida rolando. Sobre as esposas que ficavam em casa, sozinhas, ouvindo o marido na transmissão, rezando para que ele não gaguejasse.

Uma dessas esposas, Dona Zuleica, lembra até hoje do marido, Júlio, que trabalhava na Rádio Tupi. Júlio era repórter de campo — aquele que fica à beira do gramado, com o fone no ouvido, esperando o sinal para falar. Durante Brasil x Tchecoslováquia, em 1970, Júlio levou uma bolada na cabeça. Um chute maluco de um jogador tcheco acertou em cheio seu crânio. Ele caiu, desmaiou, mas, ao acordar, a primeira coisa que fez foi perguntar: “Conseguiram ouvir minha última entrada?” A entrada, claro, não aconteceu. Júlio foi substituído por outro repórter. Mas ele voltou ao estádio no dia seguinte, com um galo na testa, e retomou o posto. Não por heroísmo. Porque era o que sabia fazer. Porque o rádio era sua vida.

Essa obsessão pelo trabalho, essa entrega total, hoje parece alienígena. O jornalismo esportivo moderno é digital, frio, muitas vezes pasteurizado. Os repórteres têm tempo para editar, para revisar, para pensar. Nos anos 1970, não. Era tudo na hora, no improviso, no talento bruto. E, acima de tudo, na paixão. Uma paixão que custava casamentos, saúde e, em alguns casos, a vida.

O preço do improviso

O jornalismo esportivo de bastidores também era — e ainda é — um negócio de sangue. As emissoras competiam ferozmente por audiência. Uma fofoca, uma informação privilegiada, uma entrevista exclusiva: valiam ouro. E os métodos para obtê-las eram, no mínimo, questionáveis. Grampos telefônicos, suborno de copeiros, invasão de quartos de hotel. Tudo em nome do furo. Durante a Copa de 70, um repórter da Rádio Continental conseguiu a escalação do Brasil antes mesmo do técnico Zagallo entregar ao árbitro. Como? Pagando a um segurança do vestiário. O segurança foi demitido depois, mas o repórter ganhou o bônus do mês. O negócio é selvagem.

Houve também o caso famoso do locutor que fingiu um infarto para não narrar a prorrogação de Brasil x Itália na final. Ele estava tão nervoso que preferiu simular um mal súbito a passar pelo sofrimento. O plano deu certo: ele foi substituído, e o substituto, um jovem de 23 anos, ganhou fama nacional. O locutor ‘doente’ nunca mais foi o mesmo. Perdeu o emprego seis meses depois. O jovem, hoje, é um dos mais respeitados do país. Essa é a lógica perversa do rádio: quem hesita, perde.

O legado que ninguém vê

Hoje, quando vemos um repórter à beira do campo, com fones e tablet, pouco imaginamos a história que o trouxe até ali. A história de homens e mulheres que suaram, choraram e sangraram para que a informação chegasse ao público. A Copa de 1970 foi o auge desse jornalismo artesanal. Depois a televisão tomou conta, o dinheiro chegou, e a essência se perdeu um pouco. Mas as raízes ainda estão lá.

No fim da conversa com Evaldo, no bar de Copacabana, ele me disse algo que nunca esqueci: “O microfone não pesa. O que pesa é a responsabilidade de não falhar com quem está ouvindo. Cada pessoa que sintoniza o rádio está colocando a confiança dela na sua voz. É um pacto de honra.” Ele levantou o copo, tomou o último gole e completou: “E honra, meu filho, a gente não negocia. Nem por um furo, nem por um salário, nem pela vida.”

Esse é o esquadrão suicida do jornalismo esportivo. Homens e mulheres que davam a vida, literalmente, pela notícia. Que choravam em silêncio enquanto narravam um gol. Que enfrentavam boladas, moscas, e o desespero do improviso. Que transformavam o rádio num altar onde o Brasil se reunia para sonhar. Hoje, a tecnologia nos distancia dessa essência. Mas, vez ou outra, num estádio qualquer, um velho repórter ainda sente o peso do microfone. E sabe que, mesmo que ninguém veja, ele está segurando uma tonelada de história.

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