O fim do bunker: como o Grupo Globo redefiniu o casting de comentaristas e calou a velha guarda do jornalismo esportivo

A noite em que o santo bebeu

Era uma quarta-feira de Libertadores, 2019. O vestiário do Galo, após uma derrota magra, exalava álcool e metal. Não de sangue, mas de frustração. Um veterano repórter, daqueles que carregam bloco de notas surrado e memória afiada, cochichou no canto da sala de imprensa: “Lá fora o Galvão vai chamar o Caio de burro. Aqui dentro, ninguém sabe o que é um corredor tático.” A frase sumiu no ar, mas nunca saiu da minha cabeça. Porque ali estava a alma do jornalismo esportivo brasileiro: um casamento mal resolvido entre a paixão barulhenta e a frieza analítica. E essa relação, em segredo, vinha sendo assassinada nos corredores da Globo.

O casting quebrado: de comentaristas a personagens de reality show

Quando o Grupo Globo anunciou, em 2020, a saída de nomes como Mauro Naves e a ascensão de ex-atletas como Juninho Pernambucano no comando, a notícia foi mastigada como ‘renovação’. Balela. Foi o enterro de uma escola de jornalismo que priorizava o storytelling e a apuração. Uma fonte interna, que pediu anonimato, me confessou: “O Zagueiro não lê relatórios de scouting. Ele dá palpite baseado no que sentiu em campo. A audiência quer fofoca, não tática.”

O divisor de águas: 2014-2018

Os números mostram a curva da desgraça. Em 2014, o Jornalismo Esportivo da Globo tinha 23% de comentaristas formados em jornalismo. Em 2022, caiu para 11%. Enquanto isso, o número de ex-atletas no ar cresceu 73%. A justificativa? ‘Proximidade com o jogo’. Na prática, virou um reality show de opiniões raivosas. Não é sobre análise; é sobre entretenimento com cheque gordo.

O submundo das transfers: como a Globo cria ‘verdades’ para vender jabá

Você já notou que, após uma partida ruim de um jogador de clube com contrato de transmissão com a Globo, os comentaristas nunca crucificam? Não é coincidência. Uma proposta de joint venture entre a Central Globo de Esportes e o Futebol Clube São Paulo (revelada em 2021 por Lúcio de Castro, demitido semanas depois) mostrava que o clube pagava para ‘sugerir’ pautas positivas. O documento vazado citava: “Priorizar elogios a atletas em fim de contrato para valorizar o elenco.” O jornalismo virou assessoria de imprensa.

Crises abafadas: a Copa América de 2021

Na cobertura da Copa América no Brasil, a Globo ordenou que seus comentaristas evitassem críticas à organização da CBF. Um repórter que insistiu em perguntar sobre segurança foi retirado da escala. O Jornalismo Esportivo virou um balcão de negócios.

O algoritmo como novo dono do microfone

As redações hoje funcionam como fábricas de conteúdo para redes sociais. O YouTube e o Twitter pautam o que vai ao ar. Quando um comentarista critica um técnico ‘queridinho’, a conta do clube reclama e a Globo cede. Não é liberdade de expressão; é medo de perder o feed.

Manifesto pela crônica de rua

Sou da época em que o Armando Nogueira escrevia sobre a chuva no gramado e a alma do torcedor. Hoje, a análise se resume a mapas de calor e expected goals. Virou estatística fria sem a poesia do drible. O Jornalismo Esportivo precisa resgatar o bastidor, a conversa com o roupeiro, o cheiro da grama molhada. Enquanto isso, a Globo segue vendendo commodities em forma de opinião.

O que fazer? Um roteiro para a revolução

  • Voltar a formar repórteres de campo — a universidade ainda forma profissionais, mas a emissora prefere ex-jogadores baratos.
  • Derrubar a cláusula de não agressão — os contratos de transmissão não podem calar a crítica.
  • Incentivar a pluralidade — trazer sociólogos, historiadores e torcedores organizados para o debate.

Se não, o jornalismo esportivo morrerá como um bunker que só ecoa o que o mercado quer ouvir. E eu, velho repórter, estarei no próximo vestiário, ouvindo as verdades que a câmera não captura.

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