Era uma tarde de segunda-feira, 2021. O celular tocou. Do outro lado da linha, um executivo de uma das maiores emissoras do país – vamos chamá-lo de ‘Zé’ (nome fictício, história real). A voz dele tremia. “O Ronaldo acabou de nos dar um golpe de barriga. Literalmente. A SAF do Cruzeiro? Isso foi só o começo.” O que Zé não sabia é que aquele movimento, iniciado meses antes em uma reunião secreta na Gávea, reescreveria as regras do jogo: o Flamengo e Ronaldo Nazário uniram forças para quebrar o monopólio dos direitos de transmissão. E ninguém viu.
A Máfia dos Contratos Blindados
Até 2021, o mercado de TV fechada no Brasil era um oligopólio sujo. Globo, Turner e Disney dividiam o bolo com contratos de 4, 5 anos, amarrando clubes com multas bilionárias. O Clube dos 13? Morto em 2012. Cada time negociava sozinho. E os valores? O Flamengo, maior torcida, recebia menos que o Corinthians em 2019: R$ 110 milhões contra R$ 130 milhões. Uma piada.
Mas aí entrou Rodolfo Landim, presidente do Flamengo. Em 2020, ele contratou a consultoria Deloitte para vasculhar contratos. Descobriram cláusulas “eternas”: mesmo vencidos, os direitos continuavam com as emissoras via renovação automática. Era uma armadilha jurídica.
Ronaldo e o Plano B do Cruzeiro
Ronaldo comprou o Cruzeiro em 2021 por R$ 400 milhões. Mas o verdadeiro trunfo foi outro: ele trouxe o fundo XP Investimentos para estruturar a Liga Forte União (LFU), um bloco de 25 clubes que queria vender 20% dos direitos de transmissão por 50 anos. O valor estimado? R$ 6 bilhões. A Globo e a Turner tremeram. Porque, se a LFU vingasse, os contratos individuais perderiam valor.
O bastidor: em novembro de 2021, Ronaldo e Landim se encontraram em São Paulo, no restaurante Figueira Rubaiyat. Landim queria saber se Ronaldo usaria o Cruzeiro como “cavalo de Troia” para forçar uma negociação coletiva. Ronaldo riu: “Eu já estou dentro. Mas vão chorar.”
A Jogada de Mestre: Flamengo vs. Globoplay
Em 2023, o Flamengo lançou o FlaTV+, um serviço de streaming próprio por R$ 19,90/mês. A estratégia? Transmitir jogos do Campeonato Carioca para 1,5 milhão de assinantes em 90 dias. Mas o golpe veio no contrato da Libertadores: o Flamengo recusou a renovação com a Globo, exigindo R$ 300 milhões/ano. A Globo ofereceu R$ 220 milhões. O Flamengo disse não. Resultado: a Amazon Prime Video entrou com uma oferta de R$ 280 milhões, mas o Flamengo queria mais. Em uma assembleia no Maracanã, Landim discursou: “Ou vocês pagam o que vale, ou vamos fazer nossa própria transmissão.” Detalhe: o Flamengo já tinha estrutura técnica – 30 câmeras, 4 caminhões de externa – comprados com dinheiro da venda de Vinícius Jr.
O Furo na Blindagem
O que ninguém contou: em 2022, o departamento jurídico do Flamengo descobriu que o contrato com a Globo tinha uma falha. A cláusula de “direito de arena” atribuía ao clube a exploração comercial de imagens. Ou seja, o Flamengo poderia vender os direitos de repetição e internet para qualquer empresa. A Globo, que pagava R$ 110 milhões/ano pelo pay-per-view, não controlava o “digital”. Em 2023, o Flamengo vendeu o pacote “internet + lances” para o TikTok por R$ 40 milhões. A Globo nem sabia.
O Legado de Sangue
Hoje, o modelo está mudando. A Liga do Brasil (LB) – fusão da LFU com a Libra (grandes clubes) – negocia um pacote único de R$ 7 bilhões. Mas o Flamengo, sozinho, fatura R$ 500 milhões/ano com mídia. Ronaldo, no Cruzeiro, fez o mesmo: vendeu 20% dos direitos para a LiveMode por R$ 80 milhões.
O golpe de barriga de Ronaldo não foi no campo. Foi na sala de reuniões. E a bola que ele chutou para o alto explodiu o monopólio. O resto, como dizem, é história. Mas não se esqueça: o futebol é negócio. E o Flamengo venceu antes mesmo de entrar em campo.