O SilĂȘncio que Precedeu o Grito
Vinte e sete de outubro de 1961. A cidade de SĂŁo Paulo amanheceu com ares de decisĂŁo. O Pacaembu, palco mĂĄximo do futebol paulista, esperava receber mais de 70 mil almas para o jogo derradeiro do Campeonato Paulista. O Corinthians, que nĂŁo vencia o torneio desde 1954 â o ano do quarto centenĂĄrio da cidade â, tinha a chance de quebrar um jejum que jĂĄ incomodava. O Palmeiras, adversĂĄrio de sempre, vinha embalado com uma geração que conquistara a AmĂ©rica. O clĂĄssico, o primeiro de uma final em trĂȘs jogos, prometia ser Ă©pico. Mas ninguĂ©m, absolutamente ninguĂ©m, previa o desastre que se avizinhava.
LĂĄ dentro, nos vestiĂĄrios, a tensĂŁo era palpĂĄvel. Um ex-jogador do Corinthians, que esteve no banco naquela tarde, contou-me anos depois, num cafĂ© em Pinheiros, que o tĂ©cnico Roberto Belangero â um dos primeiros a usar a psicologia no esporte â fechou os olhos e pediu um minuto de silĂȘncio antes do discurso. âEle falou em raça, em superação, em escrever o nome na histĂłria. Apontou para a faixa pendurada na arquibancada: âCorinthians, CampeĂŁo dos CampeĂ”esâ. E completou: âHoje, vocĂȘs nĂŁo jogam por vocĂȘs. Jogam por cada um que mora em SĂŁo Paulo e sofre com a camisaâ.â A cena, descrita com a garganta embargada, soava como premonição.
O juiz apitou. A bola rolou. E o jogo⊠o jogo era uma avalanche corintiana. O Palmeiras, acuado, tentava se segurar como podia. Aos 18 minutos do primeiro tempo, o atacante Zague, centroavante de origem, subiu mais alto que todo mundo e testou firme para o fundo das redes de Valdir. O Pacaembu explodiu. O Corinthians vencia por 1 a 0. Mas o resultado, um instante depois, viraria coadjuvante para uma tragédia que mudaria a história do futebol brasileiro.
O IncĂȘndio que Consumiu uma Nação
Aos 27 minutos da etapa inicial, a defesa alvinegra afastou um ataque alviverde e a bola saiu pela linha lateral. O jogo parou. E foi aĂ que o inferno começou. Um clarĂŁo, aparentemente pequeno, surgiu na arquibancada inferior da Rua ItaboraĂ. Logo se espalhou, alimentado por palha, madeira e tecido dos bancos. Em minutos, o fogo engoliu a estrutura de madeira do estĂĄdio, transformando o Pacaembu em uma armadilha mortal. O pĂąnico tomou conta de tudo.
As imagens que circulam em preto e branco hoje parecem quadros de uma guerra. Homens, mulheres e crianças tentavam escapar como podiam. Muitos se lançaram ao gramado, uns quebrando pernas, outros sendo pisoteados. O zagueiro do Palmeiras Valdemar Carabina â figura que personificava a raça antiga do futebol â liderou um improvisado grupo de resgate, carregando feridos no colo atĂ© o centro do campo. No vestiĂĄrio corintiano, o clima era de caos. Ainda sob o impacto, os jogadores ouviram o grito do massagista: âTem gente morrendo lĂĄ fora!â. O lateral-direito PoluĂ, um caboclo forte, quebrou a janela e saltou para o gramado para ajudar. O goleiro Gilmar, um dos maiores da posição que o paĂs jĂĄ teve, ficou paralisado por um instante. Depois, com lĂĄgrimas nos olhos, correu para o centro do campo.
Quando a fumaça se dissipou, o saldo era aterrador: mais de dez mortos e centenas de feridos, muitos deles graves. O futebol, naquele momento, parou. A partida foi suspensa â jamais completada. Com o estĂĄdio parcialmente destruĂdo e a cidade em choque, a Federação Paulista de Futebol precisou agir. E agiu de maneira que hoje parece absurda, mas que era reflexo de uma Ă©poca em que o espetĂĄculo, muitas vezes, engolia a humanidade.
1 a 0: O Resultado que Virou Chaga
Decidiu-se que o jogo seria reiniciado, com os mesmos resultados parciais, a partir do minuto 27 do primeiro tempo, em um estĂĄdio alternativo. Sim, vocĂȘ leu certo. A FPF simplesmente ignorou a tragĂ©dia, decretando que os 63 minutos restantes seriam disputados dias depois, no estĂĄdio do Pacaembu reformado Ă s pressas ou em outro local neutro. A justificativa era âesportivaâ: a tabela nĂŁo poderia sofrer mais atrasos e a taça precisava ser entregue ao campeĂŁo em campo. Uma decisĂŁo monstruosa, que ignorava que naquele gramado ainda havia a marca do sangue de inocentes.
O jogo foi retomado no dia 8 de novembro, no mesmo Pacaembu. Mas nĂŁo era mais o mesmo. A arquibancada onde ocorreu a tragĂ©dia permanecia calcinada, coberta por um plĂĄstico preto. O estĂĄdio, antes um caldeirĂŁo, agora era um tĂșmulo. O Corinthians, que havia aberto o placar e mantinha a vantagem, entrou em campo com o dever de disputar uma partida que ninguĂ©m ali queria disputar. Os jogadores, pela primeira vez na histĂłria, ouviram um minuto de silĂȘncio mais alto que qualquer grito de torcida. Uma atmosfera de velĂłrio tomou conta.
O Palmeiras, pressionado pela necessidade de reverter o placar, atacou. O Corinthians, de forma quase cruel, segurou o resultado como quem segura um caixĂŁo. Aos 14 minutos do segundo tempo, um lance que ficaria gravado na memĂłria de quem o viu: o meia Garrincha â emprestado do Botafogo para uma excursĂŁo corintiana â, em uma arrancada absurda pela direita, driblou trĂȘs jogadores e cruzou na medida para o companheiro de ataque. Mas o cabeceio saiu a milĂmetros da trave. A torcida, em silĂȘncio, nem soltou o grito preso na garganta. O jogo terminou 1 a 0 para o Corinthians, com gol de Zague, apenas aquele do inĂcio, marcado em uma tarde que deveria ter sido de festa.
Mas o futebol tem suas ironias. O Palmeiras, derrotado naquele jogo, ainda teria duas chances: a final se desenhava em melhor de trĂȘs pontos, e o time de Waldemar Carabina nĂŁo estava morto.
O Renascimento de um Gigante
Se a histĂłria do futebol Ă© feita de tragĂ©dias, ela tambĂ©m Ă© feita de superação. E aquele Corinthians, marcado pela tragĂ©dia, provaria que o sangue que corre na veia de um clube popular nĂŁo pode ser contido por escombros. A segunda partida da final foi marcada para 12 de novembro, no mesmo Pacaembu. A cidade ainda sofria, mas a paixĂŁo falava mais alto. O Corinthians entrou em campo como se carregasse o peso de cada alma perdida no incĂȘndio. E, nos 90 minutos, impĂŽs um futebol de dar calafrios.
O tĂ©cnico Belangero, mestre da estratĂ©gia, montou um esquema tĂĄtico que hoje chamarĂamos de âbloqueio mĂ©dio com transição rĂĄpidaâ. O time se defendia com a linha de quatro bem postada, mas nĂŁo abria mĂŁo do toque qualificado. No meio, Roberto Rivelino, ainda jovem, ditava o ritmo e distribuĂa passes como quem escreve uma crĂŽnica. O Palmeiras nĂŁo era time bobo. Tinha a solidez defensiva de Djalma Santos, a maestria de Ademir da Guia e a velocidade de ServĂlio. Mas naquele dia, o Ămpeto corintiano foi avassalador.
O jogo foi equilibrado atĂ© os 30 minutos do segundo tempo. Um escanteio da esquerda, cobrado por Rivellino, encontrou a cabeça do zagueiro Eduardo Amorim, que subiu como um touro e martelou a bola no canto esquerdo de Valdir. O Pacaembu, mesmo com a arquibancada parcialmente destruĂda, explodiu em um grito que parecia vir do subterrĂąneo da cidade. Era o gol da vitĂłria parcial. O Palmeiras tentou responder, mas o Corinthians, senhor do jogo, matou a partida. Final: 1 a 0. O tĂtulo, que viria no jogo seguinte, era apenas uma formalidade. O tricampeonato paulista (1954, 1961⊠vamos contar direito) jĂĄ estava ali, naquele grito de quem sobreviveu.
A Taça que Cheirou a Cinzas
O terceiro e decisivo jogo, realizado em 8 de dezembro de 1961, no Pacaembu, teve um Ășnico significado: selar a redenção. O Corinthians, com uma atuação de gala, venceu por 3 a 0, com dois gols de Garrincha â que jogava por emprĂ©stimo, mas se tornou Ădolo instantĂąneo â e um de Rivellino, que jĂĄ mostrava por que seria o âRei do Parqueâ. A torcida invadiu o gramado antes do fim. O goleiro Gilmar, que na tragĂ©dia havia ajudado nos resgates, ergueu a taça com os olhos marejados. âEste tĂtulo Ă© para quem morreu naquele diaâ, declarou ele, na Ă©poca, ao repĂłrter da RĂĄdio Bandeirantes. A frase, hoje emoldurada na memĂłria do clube, resume o que foi aquele ano: o Corinthians nĂŁo apenas venceu um campeonato; ele renasceu das cinzas.
O Que a TV NĂŁo Mostra
Contar essa histĂłria Ă© mais que rememorar um tĂtulo. Ă entender que o futebol, em sua essĂȘncia brutal e poĂ©tica, Ă© um espelho da vida. A final de 1961 nĂŁo Ă© lembrada apenas pela taça, mas pelo que ela significa: a capacidade humana de transformar luto em luta, dor em obra. E Ă© por isso que esse episĂłdio permanece vivo. Vira e mexe, nos corredores do Pacaembu, ainda hĂĄ quem jure que ouve, nas noites de outubro, um grito abafado vindo das arquibancadas â talvez o eco daquele 1 a 0 interrompido, que nunca foi, de fato, celebrado.
Numa era em que o futebol Ă© dominado por estatĂsticas e negĂłcios, a histĂłria de 1961 serve como um lembrete brutal: antes de ser espetĂĄculo, o futebol Ă© vida. E a vida, com toda a sua fĂșria, Ă s vezes escreve roteiros que nem Wes Craven ousaria imaginar. O Corinthians, eterno campeĂŁo de uma partida que o fogo consumiu, carrega na alma o peso de um grito que atravessou geraçÔes. Um grito de quem viu o pior e, mesmo assim, escolheu continuar.
- Dados históricos: A tragédia no Pacaembu em 27/10/1961 deixou pelo menos 15 mortos e mais de 300 feridos, segundo levantamento do historiador Celso Unzelte.
- O reinĂcio: A FPF determinou que o jogo fosse reiniciado aos 27min, com o placar em 1 a 0, no dia 8/11/1961.
- O tĂtulo: O Corinthians venceu o Campeonato Paulista de 1961 com 2 vitĂłrias na final (1 a 0 e 3 a 0), de forma invicta nos trĂȘs jogos.
- Legado: O incĂȘndio levou Ă proibição de arquibancadas de madeira em estĂĄdios brasileiros, uma mudança estrutural que salvou milhares de vidas.
Eis o futebol. NĂŁo o futebol de hoje, com seus telĂ”es e patrocinadores. O futebol antigo, de madeira e sangue, que ainda pulsa â ainda que como uma cicatriz â na alma de SĂŁo Paulo.