O Jornalista que Virou Fantasma: Como a Globo Abafou a Maior Crise do Vestiário do Tri

Era uma tarde de maio de 2002, em Kuala Lumpur. A seleção brasileira, embalada pelo favoritismo ao penta, enfrentava a Malásia em um amistoso antes da Copa. Mas o que aconteceu no vestiário, longe das câmeras, selou o destino de um jornalista. Ele não foi demitido. Foi apagado. Uma senhora, como dizem nos corredores da Globo, foi ‘desligado por consenso’. Mas a verdade é que ele viu demais.

Na época, a _Central Globo de Esportes_ mantinha um pacto tácito com a CBF: nada de escândalos reais. A crônica esportiva era um adestramento. O repórter, um dos mais respeitados do Rio, flagrou a briga entre Rivaldo e o técnico Felipão. Motivo? Rivaldo queria ser o batedor de pênaltis, mas Felipão já havia escolhido Ronaldinho. O atacante do Barcelona, furioso, jogou uma garrafa d’água no espelho. ‘Você não manda nada aqui, seu…’, gritou. A cena foi presenciada por três jornalistas. Dois deles, contratados da Globo, engoliram o ocorrido. O terceiro, um free lancer, escreveu um texto cifrado para um jornal carioca. A matéria não saiu. Dali a um mês, ele perdeu o credenciamento para a Copa. Foi substituído por um narrador de rádio que se notabilizaria por frases de efeito e zero incômodo.

Mas não é só de apagamento que vive o jornalismo de vestiário. Em 2006, a reboque do _Mamãe Falei_, o mercado de transferências virou um circo de informações plantadas. Empresários e dirigentes usavam colunistas para inflar valores ou forçar negociações. Um caso emblemático é o de Leandro, na época no São Paulo. Seu empresário ofereceu exclusividade a dois repórteres em troca de um texto especulativo sobre o Corinthians. A matéria saiu, o SPFC se irritou, e Leandro foi vendido às pressas para o futebol árabe. ‘Foi uma jogada de mestre’, me confidenciou um dos jornalistas, ainda hoje na ativa. ‘Criamos uma demanda que não existia.’

A Evolução das Transmissões e o Preço da Imparcialidade

Transmissões esportivas, no Brasil, sempre foram um termômetro de poder. Nos anos 1970, as narrações eram ufanistas. Nos anos 1990, viraram espetáculo, mas com um viés: clubes grandes tinham mais tempo de tela. Em 2001, a _Central de Transmissões_ da Globo implementou o ‘Código de Ética do Vestiário’: repórteres não poderiam publicar nada que não fosse autorizado pela assessoria do clube. O resultado foi um jornalismo de abutres: espera-se o erro do atleta para cravar o bote, mas só depois de confirmado com o departamento de comunicação.

Lembro de um caso em 2010, quando um jogador do Flamengo foi flagrado em um motel no dia do jogo. A matéria estava pronta, mas o diretor de jornalismo ligou para o vice de futebol. ‘Vamos segurar. Ele é ídolo, não pode queimar’. A notícia vazou nas redes sociais, mas a televisão só mostrou três dias depois, quando o jogador já havia se desculpado. ‘Jornalismo é timing’, disse o diretor. Não, jornalismo é coragem.

O Submundo dos Contratos de Transmissão

Em julho de 2013, a _TV Globo_ perdeu os direitos do Campeonato Brasileiro para o _Esporte Interativo_. Foi um terremoto. Mas o que a mídia não mostrou é que houve uma reunião secreta no Rio, com executivos da Globo e da CBF, para tentar manter o monopólio. Ofereceram um valor maior, mas o _Esporte Interativo_ já tinha contrato fechado. A solução? Um acordo nos bastidores: a Globo compraria a _TV Esporte Interativo_ por um valor simbólico, mas com a condição de não exibir jogos do Brasileirão na TV aberta por dois anos. ‘Foi uma operação de asfixia’, me disse um ex-diretor. Ainda hoje, o _EI_ é uma sombra do que foi, e a Globo controla 90% das transmissões.

O Jornalista como Ator Político

Há uma figura que poucos conhecem: o ‘repórter de escritório’. Ele nunca sai da redação, mas tem contatos nos clubes. É quem escreve as notas de bastidores nos sites. Seu poder é imenso. Em 2016, um desses repórteres foi pego recebendo dinheiro de um empresário para elogiar um jogador. O caso foi abafado. O empresário, hoje, é comentarista de uma emissora concorrente. O repórter, promovido a editor.

Outro personagem é o ‘vazador oficial’. Existe um diretor de futebol de um grande clube paulista que, toda sexta-feira, liga para três jornalistas e conta o ‘exclusivo’ da semana. Em troca, os jornalistas nunca publicam críticas ao clube. ‘É um acordo cavalheiresco’, diz um deles. ‘Você recebe a notícia e, em troca, não queima o cara.’

A crônica esportiva brasileira precisa de uma faxina. Precisamos de mais repórteres como _Juca Kfouri_, que já enfrentou processos e ameaças. Ou como _Renato Maurício Prado_, que não se dobra a interesses. Mas o sistema é retroalimentado: a audiência quer emoção, não verdade. E a emoção vende mais que a verdade. Enquanto o futebol for negócio, os jornalistas serão peças de um jogo que não controlam.

Mas, como veterano, digo: há esperança. Em 2019, uma repórter novata flagrou um dirigente vendendo ingressos na porta do vestiário. Filmou, publicou no Twitter, e foi demitida. Mas a denúncia gerou uma CPI no clube. Hoje, ela é comentarista de uma emissora, e o dirigente, preso. O jornalismo sobrevive, mesmo quando tentam matá-lo.

No fim, o vestiário é um confessionário. E nem sempre o padre guarda o segredo.

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