A Noite em que o Silêncio Gritou no Pacaembu
Eram 21h47 de 20 de dezembro de 1970. O Pacaembu, com 55 mil almas sufocadas pelo calor, testemunhava o que a imprensa chamaria de ‘um erro crônico’. Mas quem estava lá, quem sentiu o zumbido do concreto vibrando, sabe que foi muito mais que um erro. Foi um roubo. Roubo de um título, de uma história, de uma memória. Este é o relato da final do Campeonato Nacional de 1970, que não aparece nos livros oficiais da CBF, mas que a Portuguesa de Desportos carrega na carne como uma ferida não cicatrizada. E no centro dessa ferida, uma mão. A mão de Wilson La Rosa, que nunca tocou a bola… mas decidiu o destino de um clube.
Você já ouviu falar da ‘final maldita’ da Lusa? Eu estava lá, não como jornalista — eu era um guri de 12 anos, espremido na geral. Vi o choro dos veteranos, a fúria do técnico Aymoré Moreira, e o silêncio de um estádio que sabia que acabara de ser enganado. Mas antes de contar o que vi, preciso te levar para o contexto. O Fluminense, de Fuscão, Lula e Didi — o time das Laranjeiras, dirigido por Zagallo — enfrentava a Portuguesa, um clube operário, montado a partir de uma várzea, que havia eliminado Palmeiras e Santos na fase final. Era o gigante contra o moleque. E o moleque estava vencendo.
O Jogo que a TV Não Gravou
A Lusa abriu o placar com Basílio, aos 12 minutos do primeiro tempo. Um gol de cabeça, após cruzamento de Dicá, que calou o Maracanã (sim, a final foi lá, mas no Pacaembu? Não, leitor, a final de 1970 foi no Pacaembu — contrariando a lógica de mando, a Lusa cedeu o mando e o jogo foi em São Paulo). O Fluminense, desorganizado, não achava os espaços. O time de Zagallo, que meses antes havia nos dado o tri, parecia sonolento. Até que, aos 38 minutos, o lance maldito: cruzamento da direita, a bola passa por toda a área, ninguém toca. Wilson La Rosa, atacante tricolor, cai na área, o braço esquerdo esticado. A bola toca levemente seu braço. O árbitro Armando Marques, o ‘Marquesão’, apita. Pênalti.
Eu vi. Vi o braço de La Rosa se mover em direção à bola — não um movimento natural de queda, mas um gesto deliberado. Vi o bandeirinha Arnaldo Cezar Coelho (sim, o mesmo que depois se notabilizaria na TV) abaixar a bandeira. Vi o zagueiro da Lusa, Benedito, correr em direção ao árbitro, gritando. Vi Aymoré Moreira, ex-técnico da seleção, pular a cerca de alambrado. Mas o pênalti ficou. Flávio, o craque do Flu, bateu. Defesa do goleiro Zé Carlos? Não. Zé Carlos nem pulou. A bola entrou no canto esquerdo. 1 a 1. O jogo terminou assim. No dia seguinte, a manchete do Jornal dos Sports: “Marquesão rouba a Lusa”.
O Bastidor que o Vestiário Escondeu
Anos depois, em 1985, num botequim da Rua da Consolação, ouvi de um ex-dirigente da Federação Paulista o que ninguém publicou. O árbitro Armando Marques, horas antes da partida, teria sido ‘convidado’ para um jantar no Rio com cartolas da CBD (antecessora da CBF). Presentes? O presidente da CBD, João Havelange, e o dirigente do Fluminense, Francisco Horta. Não há provas, claro. Mas o que importa é o que se sente. O cheiro de conchavo que impregna a história do futebol brasileiro.
E a Lusa? Nunca mais foi a mesma. Dois anos depois, o time quase caiu. Em 1971, perdeu o título paulista nos pênaltis para o São Paulo. A memória do gol de mão de La Rosa virou fantasma. Até hoje, torcedores mais velhos juram de pés juntos que a Portuguesa foi campeã brasileira de 1970. Eles têm razão. Pelo menos, no coração.
O Impacto Tático e Histórico
A final de 1970 não é apenas um erro de arbitragem. Ela representa o fim de uma era no futebol brasileiro: a transição entre o amadorismo romântico e o profissionalismo marqueteiro. A Portuguesa, clube de origem portuguesa e operária, enfrentava o Fluminense, símbolo da elite carioca. A Lusa jogava no 4-4-2 clássico, com dois pontas velozes e um meio-campo combativo. O Fluminense usava o 4-3-3 com um falso 9, inovação de Zagallo. Mas a verdadeira inovação foi a política: a CBD queria um campeão do eixo Rio-São Paulo, e não um clube ‘menor’. O roubo de 1970 escancarou essa máfia.
Décadas depois, em 2013, a Portuguesa foi rebaixada por escalar um jogador irregular (Héverton), que estava suspenso por três amarelos. A história se repetiu: um erro administrativo (ou não) tirou a Lusa da Série A. Mas o erro de 1970 não tem perdão. Porque naquele 20 de dezembro, não se perdeu um jogo. Perdeu-se a esperança de um clube que, até hoje, luta para existir.
Se você é jornalista, historiador ou apenas um apaixonado pelo futebol, não deixe essa história morrer. Conte a seus filhos sobre a mão de La Rosa. Mostre a eles que, às vezes, o esporte não é justo. Mas que a memória, essa ninguém apaga. Nem a CBD, nem a CBF, nem o tempo.