Era 3 de julho de 1974, em Munique. O Mundial da Alemanha Ocidental tinha um favorito absoluto: a Holanda de Johan Cruyff, o time que reinventou o futebol com seu Carrossel alaranjado. Mas o Brasil bicampeão mundial (1958, 1962) ainda carregava a aura de Pelé, que havia se aposentado da seleção em 1971. A semifinal no Olympiastadion prometia um duelo de gigantes: de um lado, a máquina tática de Rinus Michels; do outro, a tradição brasileira, comandada por Zagallo.
A crônica esportiva nunca contou o que aconteceu nos minutos finais do primeiro tempo. Um zagueiro brasileiro, Luis Pereira, sentiu uma dor lancinante no braço esquerdo ao tentar desarmar Cruyff. Ele quebrou o punho. Mas não disse nada. Aplicou uma injeção de anestésico no vestiário — um segredo que só um massagista testemunhou. Pereira voltou para o segundo tempo, mesmo com o osso exposto sob a pele, porque sabia que, sem ele, a defesa brasileira desabaria.
O jogo começou com a Holanda impondo seu ritmo. Cruyff vagava pelo campo, desorientando a marcação brasileira. Aos 14 minutos, Neeskens abriu o placar de cabeça, após escanteio. O Brasil sentiu o golpe. Zagallo gritava à beira do campo: “Marca homem! Não deixa eles trocarem passes!” Mas a Holanda parecia um fantasma — a bola corria mais rápido que os pensamentos.
Aos 32, veio o lance que mudou tudo. Rivelino, de falta, bateu no meio do gol para Jairzinho, que invadiu a área e chutou cruzado. A bola desviou em Haan e entrou. 1 a 1. O estádio silenciou. O Brasil estava vivo.
No segundo tempo, o Brasil cresceu. Ademir da Guia, o Divino, começou a ditar o ritmo no meio-campo. Mas Luis Pereira, com o braço quebrado, errou um passe bobo aos 18 minutos. Cruyff roubou a bola, lançou para Rep, que chutou cruzado — 2 a 1 Holanda. O golpe era duro demais. Pereira caiu de joelhos, chorando.
Mas o Brasil não se entregou. Aos 35, Leão fez milagre em chute de Cruyff. E, aos 41, Valdomiro cruzou da direita, Jairzinho desviou de cabeça, e a bola foi na trave. O empate parecia questão de tempo.
Foi quando Cruyff, aos 43 minutos, deu o golpe de misericórdia. Ele recebeu na entrada da área, de costas para o gol, e, sem olhar, deu uma bicicleta espetacular. A bola subiu, passou por cima de Leão, e morreu no ângulo. 3 a 1. O estádio veio abaixo.
O Brasil tentou reagir, mas não houve tempo. O apito final decretou o fim de uma era: a primeira derrota do Brasil em Copas desde 1966. Mas a verdadeira tragédia estava no braço de Pereira. No vestiário, ele desmaiou com a dor. O médico da seleção, LÃdio Toledo, revelou anos depois: “Ele jogou com o punho fraturado. Se a bola batesse no braço, ele poderia ter uma lesão grave.” Aquela semifinal, conhecida como o Milagre de Munique, foi o ápice do futebol total. A Holanda venceu, mas perdeu a final para a Alemanha, num jogo em que Cruyff foi caçado por Vogts. Muitos dizem que o cansaço da semifinal contra o Brasil pesou. O time que parou o Brasil não venceu o Mundial, mas entrou para a história como o maior time que nunca ganhou uma Copa.