O Negócio da Dor: As Crises Abafadas no Vestiário do São Paulo na Era Ceni

O olho do goleiro arregalou. Não era o gol. Era a cortina de fumaça que escondia um esfacelo. Maio de 2022. O São Paulo de Rogério Ceni acabara de ser eliminado na fase de grupos da Sul-Americana para o fraco Ayacucho, do Perú. Mas o resultado, por mais vexatório, não era a ferida. A ferida era o que se ouvia nos corredores do Morumbi após o apito final. Um jogador, cujo nome jamais vazaria publicamente, desabou no banco de reservas e gritou: ‘Eu não aguento mais ouvir o técnico!’ O silêncio foi sepulcral. A diretoria, estrategicamente, abafou. A cena, relatada por um roupeiro que pediu anonimato, revelava o cerne de um problema que a imprensa esportiva, muitas vezes conivente, trata como ‘gestão de grupo’. Mas não é. É guerra declarada.

Rogério Ceni é um mito. Goleiro artilheiro, ídolo máximo, capitão do tri-mundial. Mas como treinador, sua gestão humana sempre foi um fio desencapado. Seu modelo de jogo – pressão alta, construção curta, linhas subindo – exige não apenas técnica, mas uma crença cega. Quando os resultados não vêm, a crença desaba. E o vestiário vira um ringue. Em 2021, sua primeira passagem, ele já havia entrado em rota de colisão com jogadores experientes como Daniel Alves e Eder Militão. Mas foi em 2022 que a crise ganhou contornos de tragédia grega. O atacante Calleri, argentino de pavio curto, chegou a ser contido por companheiros para não agredir fisicamente o treinador durante um treino. A briga? Uma jogada ensaiada que deu errado. Ceni quis cobrar. Calleri respondeu. O time ficou mudo.

A Engrenagem quebrada: A Política de Transferências

O drama do vestiário é apenas um sintoma. A raiz do mal está no departamento de futebol, ou melhor, na ausência dele. O São Paulo, desde a saída do executivo de futebol Raí em 2021, vive um vácuo de poder. Sem um diretor técnico que faça a ponte entre treinador e elenco, as contratações se tornam campo minado. Ceni queria um meia armador, um ‘camisa 10’ clássico. A diretoria trouxe Patrick, volante do Internacional, que se machucou na estreia. Ceni pediu um centroavante de área. Chegou Alisson, atacante de velocidade. O descompasso entre o que o treinador quer e o que o clube consegue contratar gera um ressentimento que envenena o grupo. Os jogadores percebem a insatisfação do técnico. E sabem que ele tem razão. Mas a culpa recai sobre eles, em campo.

O Papel da Imprensa: Cúmplice ou Investigadora?

A crônica esportiva brasileira, em sua maioria, falhou em cobrir essa crise. Por que? Porque Rogério Ceni é um ídolo midiático. Sua relação com a imprensa é ambígua: ao mesmo tempo que a usa para se blindar, a trata com desdém. Em coletivas, ele desvia de perguntas com respostas ásperas, e poucos jornalistas o confrontam. O caso mais emblemático foi em julho de 2022, quando o time perdeu para o Palmeiras no Allianz Parque. Um repórter perguntou sobre a postura defensiva. Ceni explodiu: ‘Você não entende de futebol!’ O repórter calou-se. Nenhum colega o apoiou. A pauta morreu ali. Nos bastidores, os jornalistas sabiam das rusgas, dos xingamentos, das panelas se formando. Mas a notícia não vingava. Por que? Medo? Conveniência? A verdade é que o jornalismo esportivo, em sua lógica de ‘informação-privilégio’, prefere manter o acesso a denunciar o que vê.

A Panela que não era Panela

Dizem que o São Paulo não tem panelas. Mentira. Toda equipe tem. A diferença é que, no Morumbi, a panela era composta por jogadores que não se encaixavam no estilo de Ceni e por outros que se sentiam perseguidos. O estopim foi o caso do zagueiro Miranda. Ídolo, campeão da Copa do Brasil em 2022, ele foi preterido por Ceni em jogos decisivos por questões táticas. Miranda, veterano de seleção, não aceitou. Chegou a discutir com o auxiliar Charles Hembert na frente do elenco. Ceni não deu a mão a palmatória. Preferiu isolá-lo. O grupo se dividiu: os mais jovens, que idolatravam Miranda, contra os ‘crias’ de Cotia, que viam no treinador o caminho para a titularidade. O resultado? Queda de rendimento, lesões inexplicáveis, derrotas em casa para times de menor expressão. E um técnico que, de brasileirão, não ganhava desde 2015.

O Mercado de Transferências: O Submundo dos Agentes

Enquanto o vestiário ardia, os bastidores do mercado de transferências do São Paulo ferviam. O clube, endividado, não conseguia pagar em dia. Agentes de jogadores passaram a usar a imprensa para pressionar a diretoria. Casos como a saída de Igor Gomes, revelado em Cotia, que foi para o Galo sem render um centavo, revelam a incompetência na gestão. Mas há algo mais sombrio: a história de um empresário que, para garantir a venda de seu atleta para o exterior, plantou no jornalismo que Ceni perseguia o jogador. A matéria foi publicada. O atleta saiu. Ceni ficou ainda mais isolado. É o submundo do futebol, onde a informação é moeda de troca e a verdade, a primeira vítima.

A Anatomia de uma Crise Abafada

Como uma crise dessas fica encoberta? Primeiro, pela blindagem da diretoria. O presidente Julio Casares, em vez de demitir Ceni (como a torcida pedia), preferiu segurá-lo, mesmo sabendo do desgaste. Segundo, pela conivência de parte da imprensa, que aceita as versões oficiais sem aprofundar. Terceiro, pela crença de que o ‘ídolo’ salvará o clube. Mas o futebol não perdoa. Em agosto de 2022, após uma derrota para o Goiás, Ceni foi demitido. Mas o estrago estava feito. O elenco, rachado, nunca mais se recuperou. E o São Paulo, em 2023, ainda colhe os frutos daquela crise: falta de identidade, desconfiança, resultados inconstantes.

Lições para o Jornalismo Esportivo

O caso São Paulo é um manual de como não cobrir uma crise. Mostra que o jornalismo esportivo, para ser crível, precisa ir além do que é dito na coletiva. Precisa de fontes múltiplas, coragem para pautar temas espinhosos, e humildade para sair da zona de conforto. Um veterano como Antero Greco, que cobriu o clube por décadas, certamente teria desvendado os meandros dessa história. Mas sua ausência, tristemente, é sentida. O legado que fica é a certeza de que o futebol é muito mais do que 11 contra 11. É um palco de dramas humanos, onde o poder e o ego decidem mais do que a tática. E que, enquanto houver cortinas de fumaça, a verdade estará sempre nos bastidores, esperando ser contada.

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