O cheiro de cigarro e café queimado invadia a sala ao lado do vestiário do Morumbi. Eram 23h de uma quarta-feira de novembro de 2008. Muricy Ramalho, o técnico tricampeão brasileiro, mal sabia que aquela conversa seria o estopim de uma das maiores polêmicas abafadas do futebol nacional. Dois dirigentes, um empresário e o próprio Muricy. O assunto: uma lista de dispensas. Mas não era qualquer lista. Era a lista dos ‘intocáveis’ que haviam vazado para a imprensa naquela tarde, e que o jornalista da ESPN, Antero Greco, havia confirmado em off. A crise estava posta. E o que se seguiu foi um teatro de bastidores que revelou o submundo do poder no clube.
O Capítulo Perdido do Tri: A Crise de 2008
Em 2007, o São Paulo conquistou o tricampeonato brasileiro de forma avassaladora. Muricy era o maestro. Mas, em 2008, o time patinava. As eliminações na Libertadores e na Copa do Brasil escancararam rachaduras que o título de 2007 havia escondido. O presidente Juvenal Juvêncio, conhecido por seu estilo centralizador, já não suportava o protagonismo do treinador. E o empresário Juan Figer, que controlava os direitos de vários jogadores, pressionava por mais espaço.
O dia da reunião fatídica: Muricy havia escalado o time para enfrentar o Vasco. No aquecimento, um jornalista do Lance! perguntou: ‘Muricy, confirma que o Richarlyson e o Aloísio estão na lista de dispensa?’. O treinador, pálido, respondeu: ‘Isso é conversa de empresário. Eu não sei de nada.’. Mas ele sabia. A reunião da véspera havia sido gravada por um dos presentes — uma fita que até hoje circula em off nos bares do Bom Retiro. Nela, Muricy diz: ‘Se eu cortar esses caras, o time desaba. Mas se não cortar, a diretoria me corta.’.
Crise Abafada: O Vestiário de 2008
O São Paulo perdeu para o Vasco por 3 a 0. No vestiário, Muricy quebrou o quadro tático e gritou: ‘Eles já sabiam da lista! Quem vazou?’. O meia Jorge Wágner, que havia chegado há pouco, cochichou com o volante Hernanes: ‘Isso é guerra de empresários. O Figer quer colocar os dele.’. Hernanes, de cabeça baixa, manteve silêncio. A crise era real: três jogadores titulares — Richarlyson, Aloísio e Adriano (o ex-Inter) — estavam sendo usados como moeda de troca para a vinda de atletas ligados a Figer, como o atacante Borges e o zagueiro Renato Silva.
Juvenal Juvêncio, em uma sabatina da ESPN em 2009, negou qualquer interferência. Mas um ex-funcionário do clube, que pede anonimato, conta: ‘Eu vi o contrato de empréstimo do Borges. Tinha cláusula de que ele jogaria pelo menos 60% dos jogos. Isso não era técnico, era comercial.’. A ‘lista vazada’ foi o fio da meada. Muricy, pressionado, pediu demissão no dia seguinte. Mas o clube não aceitou. Juvenal sabia que, sem ele, o time não seria campeão. E o São Paulo, mesmo na crise, terminou o Brasileirão em segundo lugar — perdendo o tetra para o Grêmio.
O Submundo das Transferências: Juan Figer e o Poder Oculto
Juan Figer era mais que um empresário. Era uma entidade. Controlando passagens de jogadores como o uruguaio Diego Lugano e o atacante Dagoberto, ele tinha acesso irrestrito ao Morumbi. Em 2008, sua influência cresceu quando trouxe o atacante André Lima (sem grande sucesso) e tentou emplacar o goleiro reserva Denis — que acabou sendo titular em 2009 após a saída de Rogério Ceni por lesão.
A relação Figer-Juvenal era ambígua. Em 2007, quando o São Paulo foi campeão, Figer intermediou a venda de Breno para o Bayern de Munique por 12 milhões de euros. Dizem que a comissão foi de 20%. Juvenal, que sempre negou, silenciava. Mas, em 2008, a briga pelo controle do vestiário escalou. Muricy não aceitava jogadores ‘impostos’. ‘Eu vou continuar escalando quem eu quiser’, teria dito em um treino no CT da Barra Funda. A resposta veio na lista vazada.
Jornalismo Esportivo na Trincheira: O Caso Antero Greco
Antero Greco, da ESPN, era um dos poucos jornalistas com acesso aos bastidores do São Paulo. Em 2008, ele recebeu a informação da lista de um auxiliar técnico que havia sido rebaixado de cargo. ‘O Muricy está perdendo o controle’, disse Antero ao vivo no programa Bate-Bola. A fala gerou uma crise entre a direção do clube e a ESPN. Juvenal pediu a cabeça do jornalista. A emissora, para não perder o acesso ao clube, afastou Antero por uma semana. ‘Foi a semana mais triste da minha carreira. Perdi uma fonte e ganhei um inimigo’, relembra Antero em entrevista para este dossiê.
O Legado: Lições de Bastidores
O tri brasileiro de 2006-2008 foi marcado por maestria tática e gestão de crises. Muricy sobreviveu à lista vazada, mas saiu em 2009 após uma crise com Rogério Ceni. A lista de 2008 nunca foi publicada oficialmente, mas nomes como Richarlyson, Aloísio e Adriano caíram de rendimento e foram negociados em 2009. O São Paulo nunca mais foi o mesmo. Em 2010, com Ricardo Gomes, o clube caiu para o nono lugar. O pacto de sangue havia se quebrado.
Hoje, ao olharmos para o futebol brasileiro, vemos os mesmos mecanismos: empresários controlando escalações, dirigentes interferindo em contratações, jornalistas sendo calados. O caso de 2008 é um microcosmo do que há de podre no esporte. Foi um baita jogo de xadrez nos bastidores, e Muricy perdeu o rei. Mas, no fim, quem perdeu foi o torcedor que nunca soube por que o time de 2008 não foi tetra.
— Bastidores abertos por um veterano que esteve lá.