Eu estava no túnel do Soccer City, em Joanesburgo. O ar cheirava a grama molhada e gasolina. Faltavam dez minutos para a prorrogação acabar. Iniesta passou por mim, cabeça baixa, os olhos fixos no chão. Ele não olhou para ninguém. Murmurava algo. Não era uma oração. Era um mantra. Anos depois, ele me revelaria: ‘Eu ensaio o pênalti todos os dias. Mas não o movimento. A sensação. O toque exato debaixo da bola. O silêncio depois da rede balançar.’
Aquela Copa do Mundo de 2010 foi um estudo de caso sobre o peso da eternidade. A Fúria enfrentava a Laranja Mecânica de Wesley Sneijder, um time que acreditava ter o direito divino de ganhar. Mas o futebol não é sobre direito. É sobre a última gota de suor, sobre o neurônio que não treme. A Holanda entrou para destruir. Mark van Bommel e Nigel de Jong transformaram o meio-campo em um ringue. Aos 28 minutos, uma joelhada no peito de Xabi Alonso. Cartão amarelo, quando deveria ser vermelho. A Espanha, que dançava com a bola, foi forçada a brigar.
Xavi, o maestro, perdeu a batuta por minutos. ‘Eles nos tiraram o tempo’, ele diria no vestiário, a voz rouca de tanto gritar. Mas Iniesta, o homem de 1,70m, movia-se como um espectro. Ele não corria; deslizava. Cada passe era um sussurro. Cada desarme, uma renúncia. Aos 60 minutos, Cesc Fàbregas entrou e deu à Espanha a profundidade que faltava. Mas o gol não vinha. E quando Robben recebeu aquela bola nas costas de Puyol, o mundo parou. Ele invadiu a área, Casillas saiu, abriu as pernas como um ouriço. Robben chutou, o pé direito tocou a chuteira do goleiro. ‘Naquele momento, vi a bola desviar’, disse Casillas na entrevista coletiva. ‘Senti o ar mudar.’
A prorrogação foi uma aula de resistência. Cansados, mas hipnotizados. Aos 116 minutos, um lance bobo. Uma cobrança de lateral, a bola passa por Van Bommel e encontra Iniesta na meia-lua. Ele domina, ajeita, e solta uma bomba de perna direita. A bola viaja 18 metros, quica uma vez antes de entrar. O goleiro Stekelenburg voa, mas é tarde. Iniesta tira a camisa, corre, o peito nu sob a chuva de luz. Ele chora. Todos choram. Mas o que ninguém viu foi o que aconteceu antes.
Dois dias antes do jogo, no hotel da seleção na África do Sul, Iniesta acordou às 4 da manhã. Ele não conseguia dormir. Sentou no chão do banheiro, onde o som do chuveiro ecoava, e fechou os olhos. Na sua mente, ele chutou 500 pênaltis contra David Villa, que fingia ser goleiro. Todos perfeitos. Todos no ângulo. Ele não falhou um. ‘Psicologicamente, eu já tinha ganhado’, ele me disse. ‘O jogo era só a cerimônia.’
O gol de Iniesta não foi sorte. Foi o resultado de anos de treino mental. Ele estudava goleiros como um engenheiro estuda pontes. Ele sabia que Stekelenburg era rápido, mas tendia a cair cedo. Então esperou. Esperou o goleiro começar a se mover. Aí tocou. A bola morreu no canto, beijando a rede. A Europa inteira rugiu.
Albert Camus, goleiro amador e filósofo, escreveu: ‘Só sei o que sei sobre a moral e as obrigações dos homens por causa do futebol.’ Iniesta encarnou essa máxima. Aquele pênalti fictício, ensaiado mil vezes, não foi um ato de coragem. Foi um ato de obsessão. Ele não chutou contra a Holanda. Chutou contra a dúvida. Contra o medo de ser esquecido.
Agora, quinze anos depois, o Soccer City é um estádio fantasma. A grama cresceu sobre os vestígios daquela noite. Mas Iniesta ainda acorda às 4 da manhã, de vez em quando. Senta no chão do banheiro. Fecha os olhos. E chuta. Sempre no ângulo. Sempre perfeito.