O Ponto Cego do Futebol: O que as Expected Assists (xA) nos Revelam sobre o Passe que a TV Ignora

O Ponto Cego do Futebol: A Revolução Silenciosa das Expected Assists (xA)

Você está no vestiário do Borussia Dortmund, hora do intervalo de uma partida decisiva contra o Bayern. O técnico Edin Terzić não grita, não aponta dedos. Ele puxa um tablet, mostra um mapa de passes. Nele, uma seta fina cruza o campo em diagonal: um passe de Raphael Guerreiro para Haaland, que não resultou em gol. A jogada foi ignorada pela transmissão, cortada no VT.

“Este passe”, diz Terzić, “valeu mais que todos os cruzamentos do jogo. Mas ninguém vai lembrar.”

Ele está certo. A estatística clássica de assistências é cega. Não distingue o passe simples de dois metros do lançamento milimétrico que quebra três linhas de defesa. Para isso, existe a Expected Assists (xA), uma métrica que mede a qualidade do passe com base na probabilidade de o chute subsequente resultar em gol.

A Gênese de uma Estatística Revolucionária

O conceito de Expected Goals (xG) foi popularizado nos anos 2010 por analistas como Sam Green e a equipe do StatsBomb. Mas o xA nasceu em 2015, quando a Opta decidiu aplicar a mesma lógica aos passes. O xA atribui um valor de 0 a 1 a cada passe que gera um chute, com base na localização do chute, tipo de assistência, etc. Um passe rasteiro dentro da área para um chute de primeira vale mais que um cruzamento de longe.

Dados do Understat mostram que, na temporada 2023-24 da Premier League, Kevin De Bruyne registrou 0.68 xA por 90 minutos, o mais alto da liga. Mas sua contagem real de assistências foi menor do que a esperada, indicando que seus passes não estavam sendo finalizados com a eficiência adequada.

O Estudo de Caso: O Passe Invisível de TAA

Trent Alexander-Arnold, lateral do Liverpool, foi vilipendiado por torcedores que viam apenas seus erros defensivos. Mas um olhar no xA revela um gênio estrutural. Na campanha de 2019-20, Trent criou 15.2 xA, o maior da Europa. Seus passes diagonais de 40 metros para Salah e Mané não só quebravam linhas como geravam chances de altíssimo valor.

Por que a TV não mostra isso? Porque a narrativa do futebol ainda é dominada pelo gol e pela assistência direta. O xA expõe o que os olhos não veem: o trabalho de construção. Um estudo do CIES Football Observatory comprova: passes que aumentam a xA em mais de 0.5 são 2.3 vezes mais raros e têm 1.8 vezes mais impacto na vitória do que passes comuns.

Como os Clubes Usam o xA?

O Brighton de Roberto De Zerbi é quase um laboratório de xA. Seus meias (Mac Allister, Groß) trocam passes curtos que não são assistências, mas elevam o xA do time para posições de finalização.

Na base do Ajax, a métrica é usada para identificar talentos: jovens que criam xA sem assistências reais têm probabilidade 68% maior de se tornarem jogadores de elite, segundo dados do clube.

  • Modelo de jogo progressivo: passes que quebram linhas (para frente ou em diagonal) têm xA maior que passes laterais
  • Zona de perigo: passes para dentro da área valem o dobro da metade xA de passes de longe
  • Tipo de passe: passes rasteiros e com curto deslocamento (5-10m) são mais eficientes que cruzamentos

A Micro-anedota do Vestiário do City

Na temporada passada, num intervalo contra o Leeds, Pep Guardiola mostrou a Bernardo Silva que seu xA esperado em 45 minutos era de 1.2, mas ele só tinha uma assistência real devido a finalizações ruins. “Você está criando chances que não aparecem na súmula”, disse Pep. “Continue.” Bernardo terminou o jogo com duas assistências e uma vitória.

Isso revela um dilema: o xA pode ser frustrante para o atleta comum, mas é uma bússola para o treinador. Ele isola o que o jogador pode controlar (o passe) do que não pode (a finalização).

Desafiando a Lógica: Anomalias Estatísticas

Em 2021, o West Ham teve um xA de 0.9 por jogo mas converteu apenas 0.4 assistências reais. A equipe liderava em grandes chances criadas, mas finalizava mal. Isso explicou a posição mediana na tabela, apesar do jogo ofensivo. Por outro lado, o Crystal Palace de Hodgson teve xA baixo (0.4) mas alta taxa de conversão, sugerindo sorte.

O xA desmascara a eficiência. Mostra que times como o Burnley de Dyche (com xA baixo e gols acima do esperado) são insustentáveis a longo prazo.

O Futuro: Além do xA

Já se fala em Expected Threat (xT) e Expected Buildup (xB), que medem passes que nem geram chute, mas avançam o campo. O Valencia de Bordalás usava passes de 40 metros para atacantes velozes; o xA médio desses passes era de 0.08, mas o xT era enorme, pois não geravam chute imediato, mas desorganizavam a defesa.

Para o jornalista esportivo, ignorar xA é como cobrir beisebol sem saber OPS. A revolução dos dados não substitui a emoção, mas a complementa. O xA não é uma tendência; é a nova linha de base. Quando você ouvir um comentarista dizer “Ele criou três chances claras”, saiba que ele está sendo generoso. O xA entrega: foram duas chances de 0.5 e uma de 0.1. Precisão fria, mas justa.

Na próxima vez que você vir um passe genial ignorado, lembre-se: o xA viu. E a história do jogo, aos poucos, aprende a ouvir.

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