Eram 23h de uma quarta-feira de 2015. O sinal ao vivo corta por três segundos. Quando volta, o apresentador André Rizek está com os olhos vidrados no monitor, o produtor grita algo no ponto eletrônico e, na mesa, um copo d’água treme. Quem assistiu ao Redação SporTV naquela noite viu um programa morrer ao vivo. Não era um erro técnico. Era um sintoma de um processo de falência que vinha sendo abafado há meses nos corredores do edifício Ventura, no Rio.
O Redação SporTV estreou em 2012, em plena guerra da TV fechada contra a Globo. Sim, a Globo brigava contra ela mesma – ou melhor, contra o irmão mais novo que começava a incomodar. A Globosat havia criado um formato inovador: mesa-redonda de debates com jornalistas, sem a rigidez do Jornal Nacional. Era uma tentativa de roubar o público do SportsCenter da ESPN, que dominava o horário nobre com seu tom informal e os bordões de João Palomino.
O que a diretoria não previu foi que, para ganhar do rival, o SporTV abriu uma porteira de vaidades e egos. O programa era uma panela de pressão: jornalistas de veículos concorrentes (como Juca Kfouri e Renato Maurício Prado) eram escalados lado a lado, e o estúdio virava ringue. Bastidores? Uma cratera. Conta um produtor que não quer ser identificado: ‘antes do programa, o clima era de velório. Cada um no seu canto, sem falar. Muitas vezes, um convidado pedia para não ser colocado ao lado de outro. A gente virava psicólogo de egos’.
Em 2015, a crise veio à tona com a acusação de que o programa estava ‘pasteurizando’ o debate. A audiência caía, e a direção do SporTV – que havia apostado em nomes como Marcelo Barreto e a jornalista Gabriela Moreira – tentou um ‘reality check’ demitindo colaboradores históricos. O golpe veio em setembro: uma briga ao vivo entre dois cronistas por causa de uma declaração sobre a CBF. A direção mandou cortar o VT. Mas a internet já tinha printado tudo.
Nos bastidores, o que se via era um esporte radical de sobrevivência. O programa tinha um orçamento que diminuía a cada trimestre. ‘A gente gravava em um estúdio que, quando chovia, gotejava no cenário. O ar condicionado quebrava toda semana. E o diretor pedia para a gente não reclamar no ar. Era humilhante’, conta um ex-editor que hoje trabalha no YouTube.
A virada de jogo veio com o êxodo de talentos: em 2017, a ESPN Brasil começou a contratar figuras como Paulo Calçade e André Rizek (sim, ele migrou). O Redação SporTV perdeu seu protagonista. A emissora tentou reformular com Gian Oddi e Cléber Machado, mas a alma do programa – aquele ‘ao vivo na jugular’ – tinha ido embora. Em 2019, o formato foi extinto, substituído por programas mais encaixotados, como o Seleção SporTV.
O que a TV não mostrou foi que o Redação SporTV foi um laboratório de tensões que revelou o submundo do jornalismo esportivo: a briga por espaço, o medo de ser cancelado pela direção e a linha tênue entre opinião e espetáculo. Hoje, quem quiser entender por que o jornalismo esportivo brasileiro é tão segmentado e, ao mesmo tempo, tão frágil, precisa revisitar as fitas apagadas desse programa. Elas contam a história de um regime que, para sobreviver, preferiu matar seu próprio filho.