O cara do outro lado da rede estava a 1,80m de mim, suando o mesmo suor, respirando o mesmo ar rarefeito de Flushing Meadows. Mas eu juro: ele já estava morto. Morto de medo. Eu vi nos olhos dele. Não era talento que faltava, era a permissão para falhar. Eu não dava essa permissão. Nem a mim mesmo.
Essa frase, sussurrada por um ex-top 10 que pede anonimato (os bastidores têm códigos), ecoa o que ninguém na TV Globo ousa dizer: o tênis de alto rendimento não é um esporte. É uma clínica psiquiátrica a céu aberto. E Jimmy Connors foi o paciente mais lúcido que já pisou numa quadra. Ou o mais delirante, dependendo do ângulo.
Estamos falando do homem que reinou 160 semanas consecutivas como número 1 do mundo, um recorde que, em 2024, ainda respira na lista dos top 10 mais longevos. Mas o número não conta a obsessão. Connors não jogava contra Bjorn Borg, John McEnroe ou Ivan Lendl. Ele jogava contra a ideia de que alguém pudesse ser melhor. Uma guerra quixotesca contra o acaso. E o recorde que realmente importa, o que ninguém ousa copiar, é a sua taxa de conversão em pontos de quebra salvos: 78% em 1974, o ápice de uma era em que o saque não era um canhão de 220 km/h. Como alguém defende o impensável?
O Dossiê da Mente: A Preparação Psicológica Proibida
Antes de existirem coaches de mentalidade com iPads e planilhas de biofeedback, Connors já operava com um princípio brutal: o bloqueio seletivo da realidade. Em 1978, na final de Wimbledon contra Borg, ele perdeu o primeiro set por 6-2. No vestiário, arrancou a camisa, olhou no espelho e repetiu 17 vezes: ‘Ele não é melhor. Ele não é melhor. O placar está errado. Eu é que estou certo.’ Relatos de um massagista da época, em entrevista ao Sports Illustrated em 1990, confirmam: Connors reescrevia a história durante o jogo. Se perdia um game, a culpa era da raquete, do vento, do juiz. Jamais dele. Uma distorção cognitiva funcional. Um delírio necessário.
Compare isso com a psicologia de pênaltis no futebol. O cobrador que respira fundo e chuta no canto está, na verdade, lutando contra o mesmo demônio: o medo do erro. Connors não respirava fundo. Ele respirava raiva. A raiva de ter que provar algo que ele já sabia. Um ciclo de validação eterna que, segundo o psicólogo esportivo Dr. James Loehr (que trabalhou com ele nos anos 80), ‘era insustentável para qualquer ser humano normal. Mas ele não era normal. Ele era um atleta de elite. E a elite não negocia com a dúvida.’
O Recorde Inquebrável: 84 Partidas Consecutivas em Quadras de Saibro (1974-1976)
Esse recorde específico, mais do que qualquer título de Grand Slam, condensa a obsessão. De 1974 a 1976, Connors venceu 84 jogos seguidos no saibro. O saibro, a superfície mais lenta e traiçoeira, onde a paciência vence a força. E ele, que odiava esperar, simplesmente não perdia. Como?
- Antecipação paranoica: Ele estudava os adversários como se fossem inimigos de guerra. Sabia o padrão de respiração de cada um no momento do saque. Uma vez, em Roma, antes de enfrentar um jovem Adriano Panatta, pediu ao técnico que filmasse Panatta num treino de saque de seis meses antes. ‘Ele muda o ângulo do braço quando está nervoso. Eu vou ver antes dele.’
- A recusa do conforto: Durante aqueles 84 jogos, Connors nunca dormiu mais de 5 horas por noite. Acordava às 4 da manhã para correr sozinho nas ruas de Paris ou Roma. ‘O medo de perder é o único combustível que não acaba’, ele disse, anos depois, num documentário da HBO. ‘Se você dorme bem, está relaxado. Relaxado é perda.’
- A micro-vitória: Em cada jogo, ele estabelecia metas internas minúsculas. ‘Vou quebrar o saque dele no primeiro game. Se não conseguir, vou ganhar o segundo set. Se perder o set, vou forçar o tie-break.’ Uma escada de realidades paralelas. Se uma meta falhava, a próxima entrava em ação, como um programa de computador. Não havia tempo para o pânico.
Mas o que torna esse recorde ‘inquebrável’ não é o número. É a logística da loucura. Nenhum jogador moderno, com a ciência e o conforto de hoje (jatinhos, nutricionistas, psicólogos), aceitaria viver na corda bamba como Connors. Rafael Nadal teve 81 vitórias consecutivas no saibro em 2005-2006, quebrou. Novak Djokovic, 43. O recorde de Connors se mantém porque ele se recusou a ser ‘normal’. Porque ele tratava cada jogo como se fosse o último. E a elite de hoje, apesar de talentosa, é mais frágil psicologicamente. Pedem conselhos. Meditam. Connors não pedia conselhos. Ele dava ordens. Até para a própria mente.
O Mindset da Elite: A Obsessão Como Estrutura
A teoria do ‘mindset de elite’ muitas vezes romantiza o sofrimento. Connors não romantizava. Ele operacionalizava. Em 1980, durante uma partida de cinco sets contra John McEnroe no US Open, ele virou o jogo após perder os dois primeiros sets. No vestiário, entre o terceiro e o quarto sets, ele não bebeu água. Ele olhou para o espelho e murmurou: ‘Estou perdendo para um cara que usa fralda. Eu sou Jimmy Connors. Eu não perco para crianças.’ McEnroe tinha 21 anos, Connors 28. A infantilização do oponente era uma tática. Rebaixar o inimigo para diminuir o próprio medo.
Hoje, os psicólogos chamariam isso de ‘reestruturação cognitiva’. Na época, chamavam de ‘maluquice’. Mas funcionava. E funcionou por 160 semanas. O que a TV não mostra é o custo: solidão extrema, divórcios, afastamento dos filhos. ‘Ele era o tênis. O tênis era ele. Não sobrava espaço para mais nada’, confidenciou uma ex-companheira, em entrevista ao The New York Times em 2003.
A Anatomia de uma Disputa de Pênaltis (ou de um Ponto de Quebra)
Transponha a lógica de Connors para o futebol. Uma disputa de pênaltis na final de uma Copa do Mundo. O jogador caminha até a marca. O goleiro dança na linha. A pressão é um abraço de afogamento. O que Connors faria? Ele não pensaria na glória. Ele pensaria na mecânica. ‘O goleiro vai pular para o seu lado esquerdo porque ele estuda vídeos. Eu vou chutar no meio, com força, rente ao chão. Se ele defender, foi sorte. Se eu errar, foi incompetência. Mas sorte não existe.’
Esse é o segredo: a transformação do imponderável em probabilidade. Connors tratava cada ponto como uma equação. ‘Se ele saca no meu forehand, eu devolvo no backhand dele. Se ele sobe à rede, eu passo por ele. Se ele fica atrás, eu dropo.’ Nunca ‘talvez’. Sempre ‘se… então’. Uma programação mental que eliminava a surpresa. A surpresa era inimiga.
E é por isso que, em 2024, nenhum jogador ousa sequer tentar igualar a sequência de 84 vitórias no saibro. Não é impossível fisicamente. É impossível psicologicamente. O tênis moderno é mais veloz, os saques mais potentes, a ciência mais avançada. Mas a mente? A mente de Connors era uma fortaleza construída sobre um pântano de ansiedade. E ele sabia nadar. Os outros, não.
No final das contas, o recorde inquebrável não é um número. É um estado de espírito. Uma disposição para sofrer que nenhum aplicativo de meditação pode ensinar. Jimmy Connors não foi um gênio. Foi um obcecado que aprendeu a usar a própria neurose como arma. E enquanto o tênis continuar sendo um esporte de cavalheiros, esse tipo de loucura metódica será um luxo que poucos podem bancar. Talvez nenhum.
E você, aí do outro lado da tela, acha que tem estômago para isso? Pense duas vezes antes de responder. O placar está errado. Mas você está certo. Até perder. Aí, o erro é seu.