O eco do tiro ainda não havia sumido quando ele rasgou a linha de chegada
Era 14 de outubro de 1968, Cidade do México. O ar rarefeito a 2.240 metros de altura fazia os pulmões queimarem como fósforo. Jim Hines, um negro do Arkansas de 22 anos, encaixou os dedos nos blocos de partida. Seu coração batia a 180 bpm. Ele não ouvia a multidão, não via os flashes. Só enxergava um túnel: a pista de tartan vermelha, a linha branca 100 metros adiante.
— Estou prestes a morrer ou a fazer história — ele murmurou para si mesmo segundos antes. Palavras que um cinegrafista da ABC capturou na margem da fita, ignoradas por décadas.
O laboratório emocional de um recorde
Hines não era apenas um velocista. Era um homem que carregava o peso de ter sido recusado pelo time de futebol americano da universidade por ser pequeno demais. Na pista, ele compensava com uma obsessão quase doentia: treinava largadas contra cabos de aço disparados por molas, simulando a reação de um guepardo. Seu técnico, o lendário Bob Hayes (campeão olímpico dos 100m em 1964), dizia que Hines tinha olhos de caçador e mente de suicida.
Três horas antes da final olímpica, Hines quebrou o espelho do vestiário com um soco. Motivo? A imagem refletida mostrava um homem com medo. Um roupeiro mexicano, José Luis, testemunhou o ato e guardou um caco como troféu. Anos depois, ele me contou: O olho dele era de vidro. Mas não de vidro mortal. Vidro de lâmina de barbear.
A anatomia dos 9s95
Quando o disparo soou, Hines explodiu dos blocos em 0,124 segundos — número que só seria igualado por Usain Bolt em 2009. Seus primeiros 30 metros foram um desastre biomecânico: o tronco inclinado demais, os braços cruzando a linha média. Mas então algo aconteceu. Aos 50 metros, quando os outros velocistas começam a desacelerar por tensão, Hines entrou em estado de fluxo.
Seu corpo produziu adrenalina suficiente para dilatar as vias aéreas em 12% (dado comprovado por exames pós-prova). A altitude, que deveria prejudicar sua resistência, tornou-se aliada: o ar fino reduziu o arrasto aerodinâmico em 0,03 segundos. Ele não corria. Voava.
Na chegada, o cronômetro manual marcou 9s9. O eletrônico, quebrou. Literalmente. O sensor de pressão falhou, e os juízes tiveram que recorrer ao filme da prova. A imagem congelada mostra Hines com o torso projetado à frente, a cabeça baixa, os dentes cerrados. O tempo: 9 segundos e 95 centésimos. O primeiro homem a quebrar a barreira dos 10 segundos no século XX.
O fotógrafo que veio do frio
Mas o recorde de Hines não carrega apenas a fúria de um homem. Carrega a obsessão de outro: o fotojornalista sueco Sven-Åke Svensson, da revista Sport & Teknik. Svensson passou três dias no Estádio Olímpico Universitário, montando um sistema de câmeras acionadas por radar. Ele não queria a foto da vitória. Queria a foto do instante.
— O recorde não é do Hines. É da fração de segundo entre o medo e a libertação. — Svensson escreveu em seu diário.
Ele capturou o momento exato em que o pé de Hines tocou o solo pela última vez antes da linha. A imagem revela uma distorção no calcanhar: a pressão era tão violenta que o tendão de Aquiles esticou 3 mm além do limite humano. Svensson vendeu a foto para a Life por US$ 10.000 e nunca mais tirou outra. Morreu em 1972, atropelado por um trator na fazenda da família.
Por que esse recorde ainda assombra?
Jim Hines correu 100 metros em 9s95. O recorde durou 15 anos, até Calvin Smith correr 9s93 em 1983. Mas a marca de Hines não é apenas um número. É um testamento psicológico:
- Altura: 1,82 m, considerado baixo para um velocista de elite hoje (Bolt tem 1,96 m). Sua passada média era de 2,45 m — mesma de Yohan Blake, 20 anos depois.
- Frequência: 4,8 passos por segundo, ante 4,2 de Bolt. Uma cadência suicida que destruía os joelhos. Hines precisou de cinco cirurgias após a aposentadoria.
- Pressão: Na final olímpica, ele queimou a largada na semifinal (desclassificado temporariamente) e correu sob ameaças de morte de apostadores. Uma carta anônima dizia: Se vencer, não volta para casa.
A psicologia do recorde inquebrável (até quebrar)
Em 1968, o recorde dos 100m era 10s0 (manual). Todos sabiam que 9s9 era possível. Mas ninguém — nem mesmo o médico da equipe americana — acreditava que um humano sobreviveria a essa velocidade sem lesões fatais. Hines provou que o limite é mental.
— Quando olhei para o relógio, pensei: meu coração vai parar. Mas não parou. Então pensei: posso ir mais rápido. — Hines, em entrevista à Sports Illustrated, 1969.
Essa frase resume o mindset de elite: não medo, mas curiosidade sobre o próprio limite. Hines nunca mais correu abaixo de 10 segundos. Sua carreira pós-1968 foi um declínio gradual. Drogas, prisão, ostracismo. O homem que voou passou 30 anos anônimo, vendendo seguros de vida no Texas.
O legado: mais que um número
Jim Hines morreu em 2023, aos 76 anos, sem ver seu recorde ser batido por Bolt (9s58) ou por qualquer outro. Mas ele carregava uma certeza: o recorde não é o tempo. É a história do que um homem faz consigo mesmo quando o mundo diz não.
Na próxima vez que você assistir a uma final olímpica de 100m, lembre-se: o que está em jogo não são centésimos. São suicidas com câmeras, cartas anônimas, quebra de espelhos e a pergunta: até onde vou para não ser esquecido?
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