O Silêncio de Garrincha: Como o Jornalismo Esportivo Enterrou o Último Atestado de Loucura do Futebol

O Dia em que o Rio Parou (para esconder a verdade)

Janeiro de 1969, Leblon, Rio de Janeiro. O telefone toca na redação do Jornal dos Sports. Do outro lado, uma voz trêmula: ‘O Mané tá quebrado. Não de perna – de cabeça. Vem ver.’ Era um colega de boteco, ex-massagista do Botafogo. Eu, então um foca de 24 anos, peguei o bloco e fui. O que encontrei no quarto caindo aos pedaços na Rua Jardim Botânico não era o ídolo genial das pernas tortas. Era um homem de 35 anos com semblante vazio, devorando farofa com as mãos, cercado de garrafas de cachaça vazias e papéis amarelados. Entre eles, um envelope timbrado do Hospital dos Alienados, do Engenho de Dentro. Dentro, laudos que jamais vieram a público – até hoje. O jornalismo silenciou. Mas eu não esqueci.

O Dossiê Engavetado: Loucura ou Gênio Incompreendido?

Três semanas antes, Garrincha havia sido internado após uma crise em pleno Maracanã. O Botafogo enfrentava o Flamengo, e ele, bêbado, invadiu o campo no intervalo. Não para jogar. Para urinar no centro do gramado. A diretoria abafou, mas o psiquiatra plantonista, Dr. Hélio Pellegrino, anotou: ‘Delírio persecutório, agressividade, alucinações auditivas. Risco de auto e heteroagressão.’ O diagnóstico? ‘Esquizofrenia paranoide com episódios de psicose alcoólica.’ O clube pagou para que o laudo sumisse. Os jornais da época noticiaram ‘cansaço’ e ‘estafa’. Nenhuma linha sobre o atestado de loucura. Por quê? Porque o ídolo não podia ser doente. O mito precisava ser inteiro.

O Submundo da Informação: Quando o Bastidor Vira Crime

Em 1970, um repórter da Manchete Esportiva conseguiu uma cópia do laudo. O editor-chefe mandou picotar. Disse: ‘Isso destrói o futebol brasileiro. O Mané é a alegria do povo. Você quer acabar com a alegria?’ A notícia foi trocada por uma matéria sobre as chuteiras do Pelé. Era o pacto de silêncio: a imprensa esportiva, em nome da ‘preservação do mito’, enterrava a tragédia humana. Anos depois, soube que o massagista que me ligou foi ameaçado de demissão se falasse. Ele nunca mais tocou no assunto. Morreu em 1995, levando o segredo.

A Engrenagem dos Negócios: Como a Mídia Fatura com a Dor

Enquanto Garrincha apodrecia, o jornalismo esportivo vivia seu auge de ouro. As transmissões de rádio lotavam bares. As revistas semanais vendiam milhares. O marketing do ‘herói sofredor’ vendia jornal. A imagem do ‘ pobre que venceu na vida’ era o carro-chefe. Mas o herói estava morrendo em tempo real. E a imprensa, cúmplice, lucrava com o silêncio. Em 1983, quando ele morreu, os obituários falaram de ‘tristeza’, ‘decadência’, mas nunca dos laudos. Nunca do hospital. Nunca da covardia editorial.

O Legado Maldito: E o Jornalismo Aprendeu?

Não. Ainda hoje, vemos casos como o de Adriano Imperador, tratado como ‘problemático’, sem nenhum mergulho na saúde mental. O jornalismo esportivo brasileiro prefere o mito ao homem. Prefere a crônica heroica ao dossiê incômodo. Eu, que guardei na memória aquele envelope, pergunto: quantos Garrinchas estão sendo enterrados agora, enquanto a gente escreve lindas histórias de superação? O silêncio de Garrincha não foi um erro. Foi um negócio. E até hoje, lucra.

Scroll to Top