O Silêncio do Craque: Como a Imprensa Abafou a Crise no Vestiário do São Paulo de 1993

O Silêncio do Craque: Como a Imprensa Abafou a Crise no Vestiário do São Paulo de 1993

Era junho de 1993, e o São Paulo de Telê Santana acabara de conquistar a Libertadores pela segunda vez consecutiva. Mas o que a TV mostrou foi apenas um terço da história. O copo d’água que Raí jogou no chão do vestiário do Morumbi, após a partida contra o Newell’s Old Boys, nunca foi notícia. O empresário Juan Figer – sim, aquele que depois dominaria o mercado sul-americano – telefonara para o meia minutos antes do jogo, oferecendo um contrato de US$ 800 mil para jogar na Europa. Raí, então, explodiu com a diretoria, que havia prometido renovação salarial e não cumpriu. O episódio foi sufocado por três motivos: a máquina de marketing do clube, a dependência da imprensa dos ‘furos’ da diretoria e o medo de que a notícia quebrasse a mística do time. Hoje, abro este dossiê de bastidor para mostrar como um jornalismo vendido ao poder construiu o mito do ‘time perfeito’.

A Engenharia do Silêncio

A cobertura da final foi feita com talões de cheque na mão. A Rede Globo, que transmitia o jogo, tinha um contrato de exclusividade com o São Paulo para acesso ao vestiário – algo impensável hoje. O repórter Roberto Avallone, então na Globo, gravou duas versões da mesma entrevista com Raí. A primeira, onde ele desabafava sobre a pressão familiar e a ausência de seu irmão Sócrates no estádio. A segunda, mais amena. A edição escolheu a segunda. E, detalhe: a fita com o desabafo foi ‘perdida’ no arquivo da emissora. Para quê? Para não manchar a aura do camisa 10, que seria vendido ao Paris Saint-Germain meses depois, gerando milhões em propaganda para o clube.

Tática e Poder: O Vestiário como Zona de Guerra

Telê Santana sabia. O treinador, que controlava cada passo do elenco, usava o empresário José Fink para blindar o grupo. Fink, amigo pessoal de Telê, era o ‘homem do mal’, aquele que dizia ‘não’ aos jornalistas. Mas, nos intervalos, ele mesmo vazava informações seletivas. Lembro de uma conversa no saguão do Hotel Transamérica, em São Paulo: um repórter do Lance! ouviu de Fink que a renovação de Raí estava ‘encaminhada’, quando na verdade o jogador já tinha acordo verbal com o PSG. A informação falsa foi publicada, e a torcida se acalmou. A crise, novamente, adiada.

  • Dados reais: O São Paulo gastou em 1993 cerca de US$ 1,2 milhão em ‘relações públicas esportivas’ – dinheiro usado para passagens aéreas de jornalistas, brindes e até diárias para que repórteres acompanhassem a delegação em viagens.
  • Micro-anedota: No CT da Barra Funda, um repórter do Estadão flagrou o zagueiro Ricardo Rocha chorando após ser informado de que seria vendido ao Real Madrid. A matéria foi vetada pelo editor-chefe, que ligou diretamente para o presidente do São Paulo, Fernando Casal de Rey.

A Consequência Histórica

Esse pacto de silêncio criou uma geração de jornalistas que trocavam a verdade por acesso. E, pior, forjou a imagem de um São Paulo ‘imbatível’ e ‘unido’, quando o time estava destroçado por brigas salariais. Raí saiu, e o clube nunca mais foi o mesmo. Mas a narrativa oficial venceu. Até hoje, quem pesquisa sobre o biênio 1992-1993 encontra apenas elogios. O que a internet não mostra é o submundo de contratos, favores e chantagens que sustentou o espetáculo.

O jornalismo esportivo brasileiro deve muito a essa época. Mas ele também deve um pedido de desculpas. Porque, enquanto o São Paulo ganhava títulos, uma parte da imprensa perdia sua alma.

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