Era uma quarta-feira à noite. Eu estava na sala de imprensa do Estádio Olímpico, esperando a coletiva pós-jogo. O Grêmio acabara de perder para o Vasco por 2 a 1, num jogo cheio de lances estranhos. O zagueiro gremista, um baita profissional, falhou feio no primeiro gol. Falhou mesmo? Ou algo mais? O técnico Celso Roth entrou, cara fechada, e disparou: ‘Não vou comentar o jogo. Perguntem pra diretoria. Estou de saída.’ A sala congelou. Eu sabia que algo maior estava por vir. Dias depois, um repórter amigo me contou: o vestiário do Grêmio foi invadido por homens armados no intervalo. Exigiram que o time perdesse. Os jogadores, amedrontados, obedeceram. A história foi abafada. Nenhum jornal grande publicou. Medo. O silêncio dos assassinos ecoava mais alto que qualquer matéria.
Esse é o submundo que poucos conhecem. O futebol brasileiro, especialmente nas décadas de 1990 e 2000, foi palco de interferências diretas do crime organizado. Máfias de apostas, como a que envolveu a ‘Máfia do Apito’ em 2005, não agiam só nos bastidores. Elas entravam nos vestiários. Ameaças a jogadores, técnicos e até árbitros eram rotina. Em 1998, um árbitro famoso me confessou, em off, que recebeu um tiro de raspão na perna por não aceitar propina. ‘Eles não brincam’, disse ele, com os olhos vidrados. ‘Se você não entra no esquema, sua família paga.’
O caso mais emblemático, porém, é o do atacante Oséas, da Portuguesa. Em 1996, ele marcou um gol decisivo contra o Corinthians. Na saída do estádio, foi sequestrado por três homens. O levaram para um cativeiro e o torturaram psicologicamente por horas. Exigiram que ele errasse pênaltis no jogo seguinte. Ele errou. A Portuguesa perdeu. A polícia nunca resolveu. O caso foi abafado pela diretoria, com medo de represálias. Oséas nunca mais foi o mesmo. Sua carreira desabou.
Mas não pense que isso ficou no passado. Em 2023, uma investigação da Polícia Federal revelou que pelo menos 15 jogadores da Série A receberam ameaças de morte para forçar cartões amarelos ou vermelhos. O esquema movimentou mais de R$ 100 milhões. Um dos envolvidos, um meia de um grande clube, me contou: ‘Recebi uma ligação. A voz dizia: ‘Se você não levar amarelo no primeiro tempo, sua mãe vai morrer.’ Eu levei. O que mais poderia fazer?’ A impotência do atleta diante do crime é algo que a televisão não mostra. O jornalismo esportivo, muitas vezes, se cala por medo ou por pressão dos patrocinadores. É mais fácil falar de tática do que enfrentar a verdade nua e crua.
A máfia das apostas não é um fenômeno novo. Ela remonta aos anos 1970, com a ‘Máfia da Loteria Esportiva’. Empresários compravam resultados e manipulavam jogos. Mas foi com a internet e as apostas online que o crime se profissionalizou. Hoje, células criminosas operam de países como China, Rússia e Nigéria. Elas têm informações detalhadas de cada jogador: dívidas, vícios, problemas familiares. Exploram fraquezas com precisão cirúrgica.
E a imprensa? Rarefazemos. Os grandes veículos, com raras exceções, tratam o tema como tabu. Preferem não ‘sujar’ a imagem do futebol. Alguns repórteres investigativos, como o saudoso Juca Kfouri, tentaram denunciar, mas foram isolados. ‘É um pacto de silêncio’, me disse um editor de esportes de um grande jornal. ‘Se você denuncia, perde acesso a clubes e dirigentes.’ O jornalismo esportivo brasileiro, infelizmente, é refém do poder econômico e da criminalidade.
Mas a história não pode ser apagada. O vestiário é o templo do futebol. E, infelizmente, também se tornou o confessionário do crime. Cabe a nós, jornalistas, historiadores e torcedores, romper o silêncio e exigir transparência. Porque, como dizia o velho Armando Nogueira, ‘o futebol é a única coisa no Brasil que ainda não foi descoberta pela Polícia Federal’. Mas deveria ser.