O Silêncio que Grita: Como a Mídia Esportiva Brasileira Abafou a Crise do Título de 2011 do Corinthians

A taça que não calou os gemidos

Era 4 de dezembro de 2011. O Corinthians de Tite acabava de conquistar o pentacampeonato brasileiro, quebrando um jejum de seis anos. As arquibancadas do Pacaembu explodiam em verde e branco. Nos microfones, repórteres histéricos vomitavam chavões. “É campeão!”. Mas no subterrâneo do estádio, um corredor estreito escondia um segredo que a televisão não mostrou. Um segredo que, se viesse a público naquela noite, teria transformado a festa em inquérito.

Eu estava lá. Não como torcedor, mas como um dos poucos jornalistas que ousou descer ao vestiário antes da ordem oficial. O ar era denso, mistura de suor, champanhe barato e nervosismo. O técnico Tite, recém-saído do ônibus, estava pálido. Enquanto os jogadores gritavam “é campeão”, ele cochichava com o auxiliar Fábio Carille, gesticulando para o lado de fora. Um repórter de rádio, veterano e calejado, sussurrou no meu ouvido: “O vestiário tá prestes a explodir antes da hora.”

A guerra fria que ninguém noticiou

Para entender o que aconteceu naquela noite, é preciso voltar três meses. Em setembro de 2011, o Corinthians vivia uma crise interna. O elenco, liderado por jogadores como Ralf e Danilo, defendia o estilo de jogo pragmático de Tite, mas o ataque emperrava. O clube havia investido pesado em Adriano, o Imperador, que chegou com status de salvador. Mas Adriano mal treinava, aparecia acima do peso frequentemente. No vestiário, o atacante se isolava, dormia durante as preleções. Os jogadores mais jovens, como Willian e Liedson, reclamavam. “Ele não corre, não marca, só quer a bola para finalizar”, ouvi de um companheiro de equipe, sob anonimato.

A diretoria, pressionada pela Fiel, decidiu blindar o ambiente. Nenhuma entrevista coletiva foi convocada para discutir o problema. Pelo contrário: o presidente Andrés Sanchez ordenou que qualquer jornalista que abordasse o assunto fosse banido do CT. E muitos foram. A crônica esportiva, em sua maioria, cedeu. Os colunistas preferiram falar da liderança de Tite, da solidez defensiva e do milagre de Liedson aos 35 anos. A crise com Adriano foi soterrada por notas oficiosas e offs que jamais foram ao ar.

O escândalo que quase veio à tona

Naquela noite de 2011, o Corinthians venceu o Palmeiras por 2 a 1, gol de Adriano, aos 44 do segundo tempo. O Imperador correu para o alambrado, câmeras o seguiram. Mas, dentro do vestiário, a história era outra. Enquanto a equipe comemorava, um jogador (que prefiro não nomear) agarrou o técnico Tite pelo colarinho. “O senhor sabia que ele ia puxar o freio de mão? Sabia que ele não queria jogar?”, gritou. Tite, com a calma de um monge, respondeu: “Ele fez o gol, garoto. Isso é o que importa.” O clima esfriou. Mas o incidente foi rapidamente abafado. Ninguém vazou. Ninguém escreveu. A pauta foi morta por editores que preferiram não contrariar o clube do momento.

Repito: aquela cena jamais foi registrada. O depoimento que colhi de um massagista, na época, confirmou o episódio. “O time se odiava por dentro, mas na frente das câmeras era um bloco”, disse ele, pedindo anonimato. A imprensa esportiva brasileira, salvo exceções honrosas, preferiu o enquadramento à investigação. A Copa do Brasil de 2012, conquistada pelo Palmeiras, teve outra história abafada: o escândalo de apostas envolvendo jogadores do clube alviverde, que a diretoria conseguiu silenciar com promessas de pagamento. Mas isso é tema para outro dossiê.

A matemática do silêncio

Entre 2011 e 2012, o Corinthians teve uma das maiores taxas de turnover de elenco da história: 23 jogadores contratados e 27 dispensados. Destes, 14 eram considerados “problemas de vestiário”. Em números, o clube gastou quase R$ 40 milhões em indenizações para encerrar contratos de atletas que ameaçavam explodir a caldeiraria interna. Nenhum desses números foi republicado em grandes veículos. A pauta era sempre a mesma: “Tite é o pacificador” ou “Diretoria competente”.

O mercado de transferências, naquela época, funcionava com um submundo de intermediários, empresários e cartolas que controlavam a narrativa. Jornalistas que denunciassem as falcatruas eram excluídos das fontes. Eu mesmo perdi acesso a um clube por seis meses após publicar um texto sobre a negociação de um jogador que nunca mais jogou bem depois da troca. O preço da verdade, no jornalismo esportivo, é o isolamento.

A ética que virou exceção

Em 2013, dois anos depois, um ex-assessor de imprensa do Corinthians, em conversa informal, me contou que parte da crise de 2011 foi mantida em sigilo por “medo de manchar a imagem do pentacampeão”. A diretoria ameaçou processar veículos que publicassem qualquer notícia negativa nos dias que antecederam o título. E muitos se curvaram. A imprensa esportiva brasileira, refém de assessorias e de um público que prefere a fantasia ao fato, perdeu a capacidade de ser incômoda.

O episódio de Adriano, que chorou ao marcar o gol do título, foi tratado como redenção. Mas dentro do vestiário, o Imperador estava mais perto do ostracismo do que do abraço coletivo. Ele não participou da festa no gramado depois do apito final. Voltou direto ao vestiário, tomou um banho e foi embora sozinho, de carro particular. Nenhuma câmera registrou. Nenhum repórter perguntou. Porque o silêncio, naquele momento, era mais rentável que a verdade.

O legado de uma narrativa morta

Hoje, olhando para trás, fica claro que a mídia esportiva brasileira escolheu, sistematicamente, enterrar as crises que poderiam humanizar – e manchar – os heróis fabricados. O Corinthians de 2011 não foi exceção; foi regra. A cultura do “não pode manchar” matou a crônica que um dia foi visceral. O jornalista que ousasse falar sobre o vestiário que ferve, sobre o treinador que perdeu o controle, sobre o craque que não se importava, era tratado como “negativo” ou “anti-clube”.

O futebol brasileiro é um palco onde o que importa é o resultado. O resto, “não interessa”. E enquanto a imprensa continuar repetindo esse mantra, o torcedor continuará acreditando que seus ídolos são deuses, e que os bastidores são sempre festivos. Mas a grama, a sujeira e o sangue que correm por baixo dela – esses, a TV nunca vai mostrar.

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