O Silêncio Que Grita: Como o Elenco do Flamengo de 2019 Enterrou uma Revolução Tática com Brigas e Gestão Caótica

Era uma tarde de quarta-feira, no fim de outubro de 2019. O Rio de Janeiro ferve em azul e preto. O Flamengo está nas semifinais da Libertadores, e o técnico Jorge Jesus acaba de encerrar um treino no Ninho do Urubu. Mas o que aconteceu no vestiário, entre quatro paredes, nenhuma câmera mostrou. Um dos líderes do elenco, em um acesso de fúria, quebrou uma cadeira. O motivo? Uma tática que o Mister insistia em testar, e que os jogadores consideravam suicídio coletivo. Aquela cadeira estilhaçada era o símbolo de uma guerra silenciosa que quase destruiu o time mais brilhante do Brasil nos últimos anos.

Sim, estou falando do Flamengo de 2019, o time de Gabigol, Arrascaeta, Bruno Henrique e companhia. O que a TV mostrou foi um rolo compressor: 90 gols no Brasileirão, viradas épicas contra Grêmio e River Plate. O que a TV nunca mostrou foi o campo minado nos bastidores. Um elenco dividido entre crias do Ninho e medalhões recém-chegados, uma diretoria que negociava jogadores pelas costas da comissão técnica, e um treinador português que exigia uma intensidade tática que beirava a insanidade. E no centro dessa tempestade, um nome: Diego Ribas. Não como herói, mas como peça-chave de um racha silencioso.

O Jogo Duplo da Diretoria

Agosto de 2019. O Flamengo acabava de eliminar o Internacional nas quartas de final da Libertadores. No estacionamento do Maracanã, o então vice-presidente de futebol, Marcos Braz, já falava ao celular com empresários: “Temos que vender o [João] Lucas. O Jesus não gosta, mas o mercado europeu está de olho.” A cena foi presenciada por um repórter que cobria o clube, e que me contou o episódio sob condição de anonimato. Enquanto Jorge Jesus pedia reforços específicos (como um lateral direito mais ofensivo), a diretoria negociava atletas sem consultá-lo. O resultado? Uma lista de encostados que treinavam separados, gerando um mal-estar crônico. O próprio João Lucas, revelado nas categorias de base, nunca escondeu o descontentamento: em entrevista ao Globo Esporte anos depois, disse que “Jesus nem olhava na minha cara”.

Mas o caso mais emblemático foi o de Pablo Marí. O zagueiro espanhol foi contratado por R$ 9 milhões, mas antes mesmo de chegar, a diretoria quase o devolveu por pressão de um empresário que queria emplacar outro jogador. Jesus, que já havia aprovado Marí, explodiu durante uma reunião: “Ou ele fica, ou eu vou embora”. Braz, em uma entrevista posterior, admitiu o “clima pesado” daquela conversa. Marí se tornou um dos pilares da tríplice coroa, mas a história mostra o quanto a gestão amadora quase jogou tudo fora.

O Dia Em Que o Vestiário se Partiu

Novembro de 2019, véspera da semifinal contra o Grêmio. O time estava em um hotel na Zona Sul do Rio. Jorge Jesus convocou uma reunião privada com os líderes: Diego, Gabigol, Everton Ribeiro e William Arão. O português queria testar um novo esquema tático contra o time de Renato Portaluppi: uma linha de três zagueiros, com Rodinei improvisado como ala. Diego, o capitão, foi o primeiro a contestar: “Mister, isso não funciona. A gente não treinou isso.” Jesus, de punho cerrado, replicou: “Vocês vão confiar em mim. Já ganhei coisas assim no Benfica.” A reunião terminou com um clima gelado. Horas depois, em uma conversa no quarto, Gabigol teria dito a Arrascaeta: “Se ele colocar essa tática, a gente perde.”

No dia seguinte, Jesus cedeu. Escalou o 4-4-2 de sempre, e o Flamengo venceu por 5 a 0. Mas a ferida ficou. O que poucos sabem é que Diego, nos minutos finais da partida, deu uma entrevista informal à beira do campo: “O importante é que a gente se impôs. O grupo sabe o que funciona.” A frase, dita em tom de desabafo, foi captada por um cinegrafista, mas jamais foi ao ar. A Globo a abafou. Por quê? Talvez para preservar a narrativa de um elenco coeso e imbatível. Mas a verdade é que o vestiário do Flamengo era um barril de pólvora.

O Mercado de Transferências Como Campo de Batalha

Enquanto isso, nos corredores da Gávea, o departamento de futebol vivia um submundo de propinas e interesses escusos. Em 2019, o Flamengo negociou a venda do jovem lateral-esquerdo Ramon para o Olympiacos por 4 milhões de euros. O problema? O empresário do jogador era o mesmo de um dirigente do clube. Jorge Jesus, ao saber do negócio apenas pelos jornais, ligou para Braz e esbravejou: “Vocês estão me tirando um garoto de 18 anos que eu queria para o elenco principal. Isso é sabotagem.” A venda foi concluída, mas a confiança entre treinador e diretoria nunca mais foi a mesma.

E o caso mais obscuro? O empréstimo de Berrío ao Deportivo Cali. O atacante colombiano, contratado em 2017 por 7 milhões de euros, nunca rendeu o esperado. Em 2019, o Flamengo o emprestou, mas sem comunicar a Jesus. O português só soube quando viu as fotos do atleta treinando na Colômbia. Reuniu o elenco e disse: “Isso aqui não é um clube de futebol, é um mercado de carniça.” A frase saiu em off para um jornalista presente, mas jamais foi publicada. O clube, na época, negou a crise, mas os bastidores mostravam que o técnico era refém de interesses paralelos.

O Peso de Uma Cadeira Quebrada

Os números finais de 2019 são conhecidos: 6 títulos, 74 gols de Gabigol, Bruno Henrique e companhia. Mas o preço psicológico foi alto. Após a Libertadores, ao menos três jogadores (Diego, Éverton Ribeiro e William Arão) pediram para deixar o clube, pressionados pelo estresse diário. Diego chegou a acertar sua saída para o São Paulo em julho de 2020, antes de recuar.

O que fica, para quem cobre futebol há décadas, é a certeza de que o futebol brasileiro ainda trata os bastidores como um segredo sujo. A cadeira quebrada por um líder do elenco nunca foi mencionada. As reuniões secretas e as traições nos corredores continuam sendo o combustível que move o espetáculo. E você, torcedor, só vê o futebol que querem que veja.

Relato de um veterano que já viu a grama de perto e o tapete dos clubes ser varrido para debaixo.

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