Era uma noite quente de terça-feira em São Paulo. O tipo de calor que faz o ar-condicionado do carro parecer uma miragem. Eu estava sentado no banco de reservas do estádio do Pacaembu, vazio, como um fantasma em um palácio abandonado. Não assistia a um jogo. Esperava. Esperava por uma ligação que nunca veio. E foi ali, naquela solidão de concreto e grama mal cuidada, que entendi como o futebol, aquele que amávamos, havia sido assassinado a sangue frio pelos agentes, pelos empresários e pela nossa própria covardia jornalística.
— Você vai publicar isso, e eles vão te queimar. — A voz no telefone era de um preparador físico, amigo de décadas. Ele não precisava dizer quem eram ‘eles’.
O Caso que ninguém noticiou
Em 2017, um jovem volante, promessa da base de um clube grande, foi vendido por um valor irrisório para um time da Ucrânia. Nada incomum. Mas o detalhe que passou batido por todos os jornais, por todos os programas de TV, foi a condição imposta pelos empresários ao clube: ‘Se o garoto não for vendido até 31 de janeiro, vocês pagam uma multa de R$ 5 milhões.’ Multa por não vender. A venda era obrigatória. O clube, endividado, aceitou. O menino, que não queria sair, foi praticamente sequestrado para um aeroporto. Sua mãe soube do embarque pelo Twitter. E ninguém, absolutamente ninguém da imprensa, fez uma matéria decente sobre isso. Por quê? Porque os grandes veículos são alimentados pelos mesmos empresários que orquestram essas negociatas.
O submundo das porcentagens
O mercado de transferências não é sobre futebol. É sobre comissões. E a maior parte delas nunca aparece nos balanços oficiais. Um exemplo gritante: a venda de Neymar para o Barcelona, em 2013. O valor oficial foi de 57 milhões de euros, mas todos sabemos que o total passou de 100 milhões. Onde foram parar os 45 milhões de diferença? Em comissões pagas a fundos de investimento, a empresários fantasmas, a intermediários que nunca viram uma bola na vida. E a imprensa? Noticiou o ‘recorde’, bateu palmas para o negócio, e raramente investigou as entrelinhas. Porque investigar significa perder acesso. Perder acesso ao vestiário. Perder o furo de reportagem. E no jornalismo esportivo brasileiro, o furo vale mais que a verdade.
O protocolo do silêncio
Lembro de uma reunião de pauta, já tarde da noite, na redação de um grande portal. O editor-chefe, um sujeito grisalho que já cobriu cinco Copas, olhou para a equipe e disse: ‘Temos um problema. Um empresário ligou para o dono do jornal. Disse que se a gente publicar aquela história sobre o desvio de luvas, vamos perder a entrevista coletiva do novo técnico.’ A pauta foi abortada em segundos. Ninguém questionou. Ninguém levantou a mão para dizer que aquilo era censura. Era o acordo tácito. O silêncio como moeda de troca.
Mídia esportiva: o circo dos cordeiros
Hoje, os grandes programas esportivos são um desfile de opiniões pasteurizadas. Ninguém ousa criticar um empresário poderoso. Ninguém menciona que tal jogador foi forçado a assinar com um agente específico para ser convocado. A pauta é controlada. Vi, com meus próprios olhos, um repórter ser cortado ao vivo por perguntar sobre os bastidores de uma negociação. O apresentador, sorrindo, disse: ‘Isso é coisa de empresário, vamos falar de bola.’ E a bola, naquele dia, era uma desculpa esfarrapada para não falar de dinheiro sujo.
O custo humano do mercado
Vamos aos números. Em 2022, o Brasil vendeu 1.200 jogadores para o exterior. Destes, 40% eram menores de 20 anos. Quarenta por cento. Meninos que trocam o colégio por um avião, a família por um alojamento em país desconhecido. Quantos desses prosperam? Menos de 10%. O resto volta quebrado, deprimido, esquecido. E a imprensa? Faz uma matéria emocional, de dois minutos, sobre o ‘sonho do menino’, e depois o descarta. Porque o verdadeiro espetáculo é a venda, não o ser humano que a sofre.
A crônica de um esporte doente
No vestiário de um clube da Série A, ouvi de um veterano, após uma derrota dolorosa: ‘O que importa? Vou embora no meio do ano. Meu empresário já tem proposta.’ A camisa não pesa mais. O clube é um trampolim. O torcedor, um cliente. E a mídia, a maior patrocinadora dessa farra. Porque sem a nossa conivência, sem a nossa omissão, o mercado de transferências não seria o monstro que é.
O que fazer?
Não me venham com soluções fáceis. Não há. Enquanto o jornalismo esportivo for pautado pela assessoria de imprensa dos clubes e dos agentes, enquanto o acesso for moeda de troca por silêncio, o futebol continuará sendo um negócio onde o produto é o atleta e a vida dele, o lucro. Mas podemos começar a contar as histórias que ninguém conta. As dores escondidas. Os bastidores que a TV não mostra. Eu, pelo menos, volto ao Pacaembu vazio esta noite. Para ouvir o silêncio. E para escrever, mesmo que ninguém leia.
O futebol não morreu. Foi assassinado. E nós, jornalistas, estamos manchados com o sangue da cumplicidade.