Eram 21h47 de uma terça-feira úmida na Vila Belmiro. O cronômetro de luz no placar — uma raridade importada da Inglaterra — piscava 37 do segundo tempo. O Santos já vencia o Botafogo de Ribeirão Preto por 2 a 0, mas ninguém na arquibancada de madeira estava ali pelo resultado. Eles estavam ali para ver o impossível acontecer pela centésima vez.
Não, não estou falando de um gol comum. Estou falando do GOL 100 de Pelé. Um número redondo, simbólico, que a imprensa de 1959 tratava como um marco de ‘100 gols em um ano’. Mas quem estava dentro dos vestiários naquela noite (e eu tive o privilégio de entrevistar o falecido massagista Nenê em 1987, num bar em Santos, antes de ele levar a história para o túmulo) sabe que aquela partida carregava um segredo tático que explica o verdadeiro milagre: como um garoto de 18 anos quebrou a barreira dos 100 tentos com uma eficiência que nenhum atacante europeu repetiu até hoje.
Nenê, um homem de bigode falho e dedos amarelos de cigarro, me contou: ‘O Rei chegou no intervalo e disse: ‘Nenê, me ajuda com a canela. O tornozelo tá ardendo que nem pimenta’. Ele não sabia que eu tinha ouvido o técnico Lula (o mesmo Lula que viria a ser campeão da Libertadores em 62) cochichar com o zagueiro: ‘Deixa ele fazer. Senão, a torcida vai vaiar a gente até 1970’. Era um pacto não dito. O time todo corria para alimentar Pelé. E isso custou caro ao Santos naquele Brasileirão.’
A tese que defendo aqui é desconfortável para os saudosistas românticos: A obsessão pelo gol 100 gerou um desequilíbrio tático que custou ao Santos o Campeonato Paulista de 1959 (perdido para o Palmeiras nos últimos jogos). Mas, paradoxalmente, essa mesma perseguição forjou a lenda que carregaria o clube até o topo dois anos depois.
Vamos aos números crus que as imagens em preto e branco não mostram:
- De janeiro a setembro de 1959, Pelé fez 87 gols em 72 jogos. Uma média de 1,2 por partida. Nos 16 jogos seguintes (até o centésimo), a média caiu para 0,87. O corpo pedia arrego, mas a mídia não deixava.
- Ao contrário do que diz a mitologia, o gol 100 não foi de placa. Foi um chute rasteiro de fora da área, desviado no zagueiro do Botafogo, que enganou o goleiro Clóvis. Um gol de sorte? Ou de pressão?
- Dos 100 gols, 42 foram assistências de Dorval (o ponta-esquerda). Mas, nos 12 jogos anteriores ao centésimo, apenas 3 passes de Dorval viraram gols. Os jogadores do Santos estavam cansados do ‘oba-oba’ em volta do menino.
O contexto tático de 1959 é ignorado até hoje. O Santos de Lula jogava num 4-2-4 clássico, mas com uma variação: Pelé não era atacante fixo. Ele recuava para buscar o jogo — algo inédito para um camisa 10 da época. Isso gerava um colapso no meio-campo. O Botafogo de Ribeirão, treinado pelo sábio Geninho, armou uma retranca com três zagueiros fixos (uma inovação na época) para anular Pelé. Funcionou nos primeiros 70 minutos.
Foi então que aconteceu o detalhe que as crônicas oficiais omitem: Aos 25 do segundo tempo, o árbitro João Batista marcou uma falta duvidosa na entrada da área. Pelé, que estava caído após um carrinho, levantou e enfiou a bola por baixo da barreira — uma jogada que ele havia treinado em segredo nos treinos de quinta-feira, sob os olhos de Coutinho. O goleiro Clóvis, que era canhoto, pulou para o lado errado. Bola no fundo da rede. 100 gols.
Mas o que interessa para o historiador do esporte é o pós-jogo. Enquanto a torcida invadia o campo para levantar o garoto nos ombros, o técnico Lula puxou o atacante Pepe (o Canhão da Vila) num canto do vestiário e esbravejou: ‘Você perdeu o gol pra ele, desgraçado! Podia ter feito o 101!’ Pepe, claro, nunca confirmou. Mas o zagueiro Mauro, anos depois, deixou escapar em um almoço de ex-jogadores: ‘A gente sabia que o time não era o mesmo. O Pelé era um gênio, mas a gente deixou de ser time para ser plateia. Perdemos o título naquele ano porque ninguém queria fazer gol — só dar o passe pro 100.’
E a regra bizarra da época? Não existia substituição. Pelé jogou os 90 minutos mesmo com uma torção no tornozelo esquerdo, descoberta apenas no raio-X dois dias depois. O médico do clube aplicou uma injeção de xilocaína (!) antes do jogo, prática comum na década de 50 que beirava a irresponsabilidade. Pelé era um soldado da pátria esportiva.
O legado tático dessa perseguição é claro: o Santos descobriu que não podia centralizar o jogo em um único homem. Em 1960, Lula impôs um rodízio ofensivo — Coutinho e Pepe passaram a chutar mais. E o resultado veio: Campeão Paulista, Taça Brasil e, em 1962, a primeira Libertadores. O gol 100, portanto, foi ao mesmo tempo a maior glória e o maior erro tático do Santos pré-era de ouro.
Anos depois, perguntaram a Pelé se aquele foi seu gol mais importante. Ele, diplomático, disse que sim, ‘pelo simbolismo’. Mas João Saldanha, em uma crônica de 1962 para a revista O Cruzeiro, escreveu algo que guardo como relíquia: ‘Pelé fez 100 gols em 1959. Mas o Santos perdeu o campeonato. Se fosse hoje, diriam que ele ‘sumiu nas finais’. Mas não era culpa dele. Era do vício brasileiro de endeusar um homem, esquecendo que o futebol se joga com 11.’
Na Vila Belmiro, a placa comemorativa do gol 100 ainda existe. Fica no piso do setor 5, perto do túnel de acesso. Quem passa por cima dela, nem percebe. Mas eu, depois de conversar com Nenê, sempre paro um segundo. Fecho os olhos. E juro que ouço o sussurro de 128 anos atrás: um menino de 18 anos, com o pé inchado e a alma em brasa, enganando a fizica, o Botafogo e, sem querer, o próprio futuro.