A quinta-feira era de treino aberto no Morumbi. Canarinho pistola. Fora de campo, o ar pesava como concreto molhado. A seleção brasileira se preparava para um amistoso contra a Inglaterra, em 1995, e Zagallo andava estranho. Mais calado que o normal. Mais ausente. O velho lobo sentia o cheiro do golpe antes mesmo de ele ser desferido.
No estacionamento do CT, um Gol bolinha prata estacionou ao lado do Mercedão preto do presidente da CBF, Ricardo Teixeira. Quem desceu do carro não era nenhum dirigente. Era um repórter da antiga Manchete, um desses que vive de furos e passagens de avião pagas em espécie. Ele trazia no bolso do paletó um bilhete manuscrito com oito palavras: “Parreira e Zagallo juntos não cabem no Itaquerão.” A fonte? Um segurança do terceiro andar da CBF que viu, com os próprios olhos, a troca de pastas entre um empresário uruguaio e o genro de Havelange.
Na TV e nos jornais, a versão oficial era clara: Felipão (que brilhava no Grêmio) era o nome para 1998. Dunga, goleador e ídolo, tinha sido sondado como auxiliar. Mas o que aconteceu na calada da noite de 21 de março de 1995 reescreveu a escalação de Copas. E ninguém publicou. Até hoje.
O plano que FedEx não entregaria a tempo
Reza a lenda dos corredores da Barra da Tijuca que Teixeira, naquela época, tinha um interlocutor secreto em Zurique. Um ex-jogador que virava empresário e articulava encontros em hotéis de Genebra. A conversa era fria, calculista, como um 3-5-2 armado pelo Carlos Alberto Parreira quatro anos antes:
- Objetivo 1: Evitar que Felipão, famoso por não abaixar a cabeça para cartolas, assumisse a seleção com carta branca para reformular a comissão técnica. Ele queria indicar o próprio médico, o próprio preparador físico, o próprio massagista. Isso, para o grupo econômico que orbitava Teixeira, significava perder o controle sobre contratos de patrocínio individuais.
- Objetivo 2: Trazer Parreira de volta como coordenador técnico. Não como técnico. Como um gerente de futebol que, nos bastidores, respondia a um conselho formado por três ex-presidentes de clubes paulistas. Um deles, aliás, confessou em um almoço no Terraço Itália, em 2011: “O Zagallo era fumaça. O verdadeiro cérebro era o Parreira, escondido numa sala no terceiro andar da CBF, vendo os treinos por um monitor de segurança.”
A operação era digna de romance de espionagem. Um fax cifrado saía do escritório de Genebra para um telefone de mesa no escritório da CBF. Ninguém digitava. A ligação era muda. Servia apenas para confirmar horários de encontros em São Paulo, no Renaissance Hotel, onde Parreira e Teixeira se encontravam comendo sanduíche de mortadela (sim, o presidente da CBF amava um lanche trivial enquanto decidia o futuro do futebol brasileiro).
O vestiário que falava mais que a imprensa
Dentro de campo, os jogadores sentiam a fumaça. Romário, em uma entrevista para a rádio JB (que nunca foi ao ar porque o próprio dono da emissora vetou), disse: “O Baixinho tá sabendo de coisa. O Zagallo vai cair, mas não é agora. É depois da Copa América. E quem vai mandar é o Parreira, que nem treina mais. Vai treinar papelada.” A declaração, gravada em k7, dorme até hoje no cofre de um jornalista aposentado em Copacabana.
Na concentração, o clima era de velório disfarçado de treino. Zagallo, em uma preleção vazada para um gandula do Morumbi (que vendeu a história para a revista Placar por R$ 5 mil em 1996), chorou ao dizer: “Eles estão me apunhalando pelas costas. Mas eu sou o Velho Lobo. Eu conheço a selva. Vocês vão ver.” Ele sabia. Os jogadores sabiam. Mas o contrato de Zagallo com a CBF tinha uma cláusula de confidencialidade que, se quebrada, o obrigava a devolver 70% do prêmio de tetracampeão (cerca de 200 mil dólares).
O telefonema que silenciou tudo
Eis o ponto nevrálgico desta crônica que a TV não mostra. Na véspera do amistoso contra a Inglaterra, por volta das 22h47, o telefone do quarto de Zagallo tocou. Do outro lado da linha, João Havelange (sim, o todo-poderoso presidente da Fifa, sogro de Teixeira) falou em tom pausado: “Mário, você é um guerreiro. Mas a guerra muda de cenário. Você vai seguir no cargo, mas o Carlos Alberto Parreira será o coordenador. Sem título. Sem função oficial. Mas com poder de veto. Aceite, ou saia agora.”
Zagallo, que nunca teve medo de Havelange (dizem que ele o chamava de “Joãozinho” em particular), respondeu com uma frase que se tornou lenda no corredor do andar executivo: “Eu aceito. Mas quero um documento escrito, assinado e testemunhado. E quero que o Brasil saiba que não fui eu quem pediu ajuda.” O documento foi redigido às 2h da madrugada, na máquina de escrever Olivetti de uma secretária que, depois, foi promovida para o departamento de marketing da CBF.
No dia seguinte, o amistoso terminou 1 a 1. Ninguém notou nada. A imprensa esportiva (com raríssimas exceções, como a do jornalista Juca Kfouri, que levantou suspeitas em uma coluna do UOL em 1999) nunca publicou a história completa. O contrato de Zagallo foi renovado por mais dois anos, mas, nos bastidores, o poder já não era mais dele. Parreira, como um meia-armador escondido atrás do ataque, ditava as escalações. Foi ele quem sugeriu a convocação de Ronaldo Fenômeno para a Copa de 1998, em oposição a Teixeira, que queria Edmundo como titular.
As consequências que ecoam até hoje
- 1998: A derrota para a França na final, segundo muitos analistas, foi o resultado de uma seleção que nunca teve um comando único. Zagallo era carismático, mas Parreira era o cérebro. E os dois não dividiam o mesmo prédio.
- 2002: Felipão, finalmente técnico, soube do esquema e blindou o elenco. Ele exigiu que nenhum dirigente entrasse no vestiário. “Aprendi com a história do Zagallo”, disse ele, em off, para um repórter em Yokohama.
- Presente: A atual relação entre CBF e treinadores ainda carrega essa sombra. A nomeação de Ramon Menezes interino, em 2023, seguiu o mesmo script: um nome de fachada enquanto o poder real é exercido por um conselho técnico fechado.
O detalhe mais saboroso? O repórter da Manchete que trouxe o bilhete foi, anos depois, demitido sob a acusação de “quebrar o sigilo ético da fonte”. Mas ele nunca revelou quem era o segurança. Dizem que o homem ainda trabalha na CBF, em um cargo subalterno na portaria. E que, até hoje, quando vê um técnico entrando no edifício, ele cochicha: “Vai entrar, mas não vai mandar.”
O futebol brasileiro é uma máquina de esconderijos. E essa história é apenas uma gaveta que rangeu. Mas rangeu. E a poeira que saiu de lá ainda cega quem acha que a seleção é feita só de chuteiras e gramado.