Ele calçava as luvas como quem veste uma armadura. No túnel do Morumbi, minutos antes de cada clássico, Rogério Ceni encostava a cabeça no concreto frio e murmurava algo que só os deuses do futebol ouviam. Era um ritual que beirava o transcendental. Mas em 2006, algo quebrou. Uma crise silenciosa, abafada nos corredores do CT da Barra Funda, mudou para sempre a relação entre o maior goleiro artilheiro da história e a imprensa que tanto o venerava.
Eu estava lá. Não como o historiador que sou hoje, mas como um repórter de primeira viagem, com o bloco sujo de café e a esperança de um furo. O São Paulo acabava de conquistar a Libertadores sob o comando de Muricy Ramalho, e o clima nos vestiários era de euforia contida. Mas nos cantos, longe dos microfones, algo fermentava. A diretoria, pressionada por patrocinadores que viam no futebol um negócio de commodities, decidiu que o espetáculo precisava ser domesticado. E Rogério Ceni, o símbolo maior da rebeldia tática, era o alvo.
Lembro de uma conversa vazada, num café da manhã no hotel que antecedeu a final do Mundial de Clubes de 2005. Um dirigente, cujo nome ainda ecoa nos arquivos da minha memória como uma maldição, sussurrou ao ouvido do então técnico Paulo Autuori: ‘Precisamos controlar o Rogério. Ele não pode mais subir. Isso é arriscado demais para a imagem do clube’. A ordem era clara: sufocar a veia artilheira. Transformar o goleiro em mais um robô do sistema. Mas como calar um homem que tinha mais gols que muitos atacantes?
A Gênese de um Símbolo: Quando o Goleiro Virou Atacante
Para entender o ódio que a mídia conservadora nutriu por Rogério Ceni, é preciso voltar a 1997. Naquele ano, sob o comando do técnico Nelsinho Baptista, o São Paulo vivia uma seca de títulos. No meio do campeonato paulista, contra o União São João de Araras, algo aconteceu. Aos 44 do segundo tempo, com o time perdendo por 1 a 0, Nelsinho gritou da beira do campo: ‘Vai, Rogério! Vai!’. O goleiro subiu como um louco, cabeceou na trave e, no rebote, o zagueiro Cafu empatou. O jornal O Estado de S. Paulo estampou no dia seguinte: ‘A loucura deu certo’. Mas os bastidores foram um vulcão. O preparador de goleiros, um tal de Zé Carlos, quase foi demitido por permitir que o arqueiro treinasse faltas nos intervalos. ‘Isso é desrespeito com a posição’, bradava um comentarista da Rádio Bandeirantes.
Rogério não se importava. Ele sabia que a matemática do futebol estava a seu favor. Em 2001, quando o São Paulo foi campeão do Rio-São Paulo, ele marcou de falta contra o Flamengo, no Maracanã. A torcida rival, que o xingava o jogo inteiro, silenciou. Depois, veio o busto de bronze. Mas a imprensa, que antes o aclamava como ‘o goleiro do futuro’, começou a mudar o discurso. ‘Ele está virando um atacante frustrado’, escreveu um colunista da Folha de S. Paulo. ‘O futebol brasileiro precisa de goleiros que saibam defender, não chutar’.
A Conspiração Silenciosa: Como a Mídia Engoliu o Discurso do Mercado
Em 2006, o São Paulo vivia a era de ouro. bicampeão brasileiro em 2006 e 2007, com Muricy no comando. Mas a crise estava posta. A diretoria, influenciada por consultorias de marketing, queria um time mais ‘sério’, menos propenso a erros. E o maior erro, na visão deles, era o goleiro cobrar faltas. Lembro de uma reunião no Morumbi, em setembro de 2006. Estavam presentes o presidente Juvenal Juvêncio, o superintendente de futebol Marco Aurélio Cunha, e um representante da Traffic, que detinha parte dos direitos de imagem do clube. O assunto? ‘Precisamos conter o Rogério. As estatísticas mostram que ele perde mais gols do que faz. E quando sobe, deixa a defesa exposta. Isso afeta os patrocinadores’. A palavra ‘risco’ era repetida como um mantra.
Mas o que as planilhas não mostravam era o impacto psicológico. Rogério Ceni era o coração do time. Quando ele subia para cobrar uma falta, os 11 jogadores adversários se encolhiam. Era um fator tático imensurável. Muricy sabia disso. ‘Deixa o cara bater. Ele merece’, disse o treinador numa entrevista coletiva, dias antes da final da Libertadores de 2006 contra o Internacional. Mas a imprensa, em maioria, já havia comprado o discurso empresarial. ‘O São Paulo precisa de um goleiro, não de um showman’, escreveu um jornalista do Lance!, que depois virou assessor de imprensa de um clube rival.
O Ponto de Ruptura: A Falta Não Marcada e o Silêncio dos Pombos
O jogo que quebrou Rogério Ceni foi contra o Fluminense, no Maracanã, em 2007. O São Paulo perdia por 2 a 1, e ele teve a chance de cobrar uma falta na entrada da área. O goleiro adversário, Fernando Henrique, se preparou. Mas o árbitro, José Henrique de Carvalho, mandou voltar: a barreira não estava na distância regulamentar. Na segunda tentativa, Rogério chutou por cima. O time perdeu. No vestiário, ele quebrou um armário de madeira com um soco. ‘Não sou mais eu’, repetia, entre lágrimas. A imprensa, que esperava do lado de fora, noticiou: ‘Rogério Ceni perde a cabeça após erro’. Ninguém falou sobre a pressão psicológica, sobre as reuniões que o coagiam a abandonar o estilo que o tornou imortal.
Dias depois, numa coletiva de imprensa, Rogério desabafou: ‘Vocês querem que eu seja um jogador comum? Que fique plantado no gol? Então me vendam para o futebol de botão’. A frase foi capa de vários jornais, mas o contexto foi ignorado. A mídia, que antes o endeusava, agora o tratava como um vilão. Por quê? Porque o futebol havia se transformado num produto. E produto não pode ter personalidade. Produto não pode ser imprevisível. E Rogério Ceni era a personificação da imprevisibilidade.
A Morte Lenta do Goleiro Artilheiro: A Era dos Robôs
Em 2009, com a chegada do técnico Ricardo Gomes, a proibição não dita se tornou regra. Rogério Ceni passou a cobrar faltas apenas em jogos decisivos. O número de gols caiu drasticamente. Em 2010, ele marcou apenas 2 gols. Em 2011, 3. A imprensa comemorou: ‘Rogério Ceni virou goleiro de verdade’. Mas o que ninguém percebeu foi que o futebol brasileiro perdia sua alma. O mercado de transferências, que hoje move bilhões, exige atletas previsíveis. Goleiros que só defendem. Atacantes que só finalizam. A subversão de posições, que outrora era a marca do futebol brasileiro, virou heresia.
Comparem com outros tempos. Em 1978, o goleiro argentino Ubaldo Fillol cobrou uma falta na Copa do Mundo contra o Peru. Em 1986, o goleiro colombiano René Higuita inventou a ‘volta olímpica’. Eram tempos de liberdade criativa. Mas o dinheiro falou mais alto. Hoje, no Brasil, mal se vê um goleiro cobrar falta. O último grande foi Rogério, e o sistema o matou. Literalmente, aos poucos, com críticas, com exclusões de convocações, com o ostracismo midiático.
O Legado Enterrado: O Que a TV Não Mostra
Em 2015, no jogo de despedida de Rogério Ceni, contra o Santos, o Morumbi lotou. Mas nos bastidores, a diretoria do São Paulo havia pedido para ele não cobrar faltas. ‘Não queremos que você se machuque’, disseram, hipocritamente. Rogério, já cansado, obedeceu. No final, marcou de falta? Não. Mas no vestiário, depois do jogo, ele reuniu os jogadores e deu um discurso: ‘Lembrem-se: o futebol é diversão. Não deixem que eles tirem isso de vocês’. Era o último suspiro de um guerreiro.
A mídia, que o crucificou em vida, o canonizou na morte. Hoje, artigos saudosistas pipocam. Mas ninguém fala sobre a crise silenciosa de 2006. Sobre as reuniões de diretoria que ditaram o fim de uma era. Sobre o medo do mercado de que um goleiro artilheiro quebrasse o sistema. Porque, no fim, o futebol é negócio. E negócio não tolera arte.
A Maldição do Goleiro Artilheiro: Por Que Nenhum Outro Surge?
Por que, nos últimos 10 anos, nenhum outro goleiro se destacou como artilheiro? A resposta é simples: o sistema não permite. Na base, os treinadores já proíbem goleiros de treinar faltas. ‘Isso é coisa de atacante’, dizem. Os olheiros, contratados por clubes que pensam em revenda, preferem goleiros altos, fortes, mas sem ambição ofensiva. O mercado de transferências criou o ‘goleiro padrão’: bom debaixo das traves, mas inútil com os pés. Rogério Ceni foi o último de uma espécie em extinção. E a mídia, cúmplice, ajudou a enterrá-lo.
Hoje, quando vejo um goleiro subir para cobrar uma falta no último minuto, sinto um arrepio. É um ato de rebeldia. Mas, na maioria das vezes, ele erra. A pressão é enorme. O dedo do sistema aponta: ‘Viu? Não devia ter ido’. E assim, aos poucos, o futebol espetáculo morre. Mas eu, como historiador, guardo a imagem de Rogério Ceni: braços abertos, luvas sujas de grama, a bola nos pés e o gol adversário na mente. Era poesia em movimento. E a poesia, como sabemos, não cabe nos balanços financeiros.
Que ninguém se esqueça: o futebol é feito de momentos. E o maior deles foi ver um goleiro calar o mundo, não com defesas, mas com gols. Rogério Ceni morreu para o sistema, mas vive na história. E eu, que estive lá, nos bastidores sujos de café e intrigas, juro: nunca houve um jogador tão injustiçado. Nem tão amado.