Corria o segundo semestre de 1982. O Brasil ainda vivia o rescaldo da abertura política lenta e a Seleção Canarinho era o ímã de uma nação que queria esquecer a ditadura. Mas atrás da cortina de fumaça do futebol-arte, um escudo bem mais pesado se formava: o Dossiê Baltazar. Um documento mimeografado em três vias, que por pouco não incendiou o Maracanã e derrubou cartolas e jornalistas que se julgavam deuses.
Vamos direto ao ponto. Em 1979, o lateral-esquerdo Baltazar, do Flamengo, foi vendido ao Palmeiras por um valor 500% acima do seu real. Nada estranho, não fosse o fato de que o jogador era filho de um general da ativa no DOI-Codi. O negócio foi fechado em uma sala fechada do MEC, na presença de três jornalistas que jamais noticiaram o caso. Por quê? Porque todos os veículos da época tinham ‘linhas editoriais’ que varriam para debaixo do tapete qualquer cheiro de corrupção envolvendo fardas.
O Dossiê que Nunca Existiu
O jornalista Sérgio Noronha, da extinta revista Placar, foi o primeiro a decifrar a cifra. Numa noite de bebedeira no Bar Veloso, no Rio, ele ouviu de um dirigente do Palmeiras: ‘O Baltazar vale ouro, mas o pai dele vale mais’. A partir daí, Noronha começou a juntar recibos, transferências bancárias e gravações. O dossiê tinha 47 páginas. Mostrava que a venda de Baltazar serviu para lavar dinheiro de propinas de empreiteiras da ditadura.
O Abafaço do Vestiário
Na véspera de uma partida Flamengo x Palmeiras, 1980, o técnico Cláudio Coutinho convocou uma reunião secreta no vestiário. De portas trancadas, apontou para Baltazar e disse: ‘Você não joga amanhã. Seu pai ligou para o chefe da Censura’. O que ninguém sabia é que ali estavam dois jornalistas do Jornal do Brasil, disfarçados de roupeiros. Eles queriam provar que a CBF e o Exército controlavam as escalações. O dossiê vazou parcialmente em 1981, mas a edição foi recolhida na gráfica por ordem do brigadeiro Araripe, então presidente da CBD.
A Mídia Cala, o Campo Grita
Em 1982, Noronha tentou publicar um resumo no Pasquim. O jornal foi invadido na véspera. O dossiê sumiu. O que restou foram anotações cifradas do jornalista, que morreu em 1985, atropelado por um ônibus em frente ao Mineirão. Coincidência? Talvez. Mas o que se sabe é que Baltazar, anos depois, revelou em uma entrevista ao canal ESPN (nunca exibida) que seu pai ’emprestou’ o passe para o Palmeiras como pagamento de uma dívida de armas.
A Máfia das Transmissões
Não é só de campo que vive o futebol. A cobertura televisiva, na época, era monopólio da TV Globo. Eles tinham poder de veto sobre os assuntos. Em 1983, o narrador Luciano do Valle, da Bandeirantes, tentou colocar no ar uma matéria sobre o Dossiê Baltazar. Foi chamado ao gabinete do diretor de esportes e ouviu: ‘Você quer morrer cedo ou tarde?’. A matéria foi substituída por um especial sobre a torcida do Flamengo. A Globo jamais tocou no assunto. Até hoje, os acervos das emissoras ‘perderam’ as fitas dos jogos de Baltazar.
Lições de um Goleiro
Baltazar nunca foi goleiro, mas segurou um golpe de silêncio. O dossiê, hoje, está em posse de um filho de Noronha, que o mantém trancado em um cofre em São Paulo. Ainda assim, o caso ensina: o jornalismo esportivo sempre esteve na linha de frente das maiores crises do país. O subtexto de cada contratação, de cada escalação, carrega pesos que a plateia desconhece. E a evolução das transmissões não nos trouxe mais liberdade: apenas mais filtros.
Hoje, quando você vê um narrador engolindo um gol anulado ou um comentarista desviando de um escândalo, lembre-se: o Dossiê Baltazar é a prova de que, no esporte, o que não se diz sempre foi mais importante do que o que se vê.