O Vazio no Voo: A Solidão de Sergei Bubka e os 6,15m que Nunca Chegaram

Munique, 1992. A pista estava molhada, o vento cortante. Sergei Bubka entrou no corredor de salto com vara como um monge que sabe que sua oração não será atendida. Trinta mil pessoas caladas. Ele olhou para o sarrafo a 6,10m, dois centímetros acima do recorde mundial. Deu três passos, plantou a vara, e sentiu o deslize do pé de apoio na grama encharcada. Parou. Pisou fora. Era a quarta tentativa. Não, a décima da semana. Décima nona do mês. Centésima da temporada. Ele sabia que não saltaria. Mas o mundo exigia o show. E o show, para Bubka, sempre foi uma mentira necessária.

Quando falamos de recordes inquebráveis, pensamos em números abstratos. 100 metros em 9s58. Maratona abaixo de duas horas. Mas ninguém fala do recorde mais solitário da história: a barreira psicológica dos 6,15m de Bubka ao ar livre, estabelecida em 31 de julho de 1994 em Sestriere, Itália. Um recorde que dura mais de trinta anos não por falta de talento, mas porque o esporte não conseguiu replicar a solidão de um homem que competia contra si mesmo em um palco vazio.

— Os caras de hoje não aguentariam uma temporada soviética — disse certa vez o treinador Vitaly Petrov, em uma mesa de bar em Lausanne, depois de duas vodcas. — Eles querem público, querem música, querem o varal iluminado. Bubka treinava no escuro. Treinava em pistas de terra. Treinava com varas de bambu quebradas que ele mesmo emendava com fita isolante. O medo não era errar. O medo era voltar para Donetsk sem ter quebrado o recorde naquela competição. Porque na URSS, se você não quebrava, você desaparecia.

Mas a genialidade de Bubka não era apenas física. Era tática. Ele entendeu algo que ninguém jamais compreendeu: o recorde mundial é um produto. E ele era o único fornecedor. Entre 1984 e 1994, ele quebrou o recorde 35 vezes (17 ao ar livre, 18 em pista coberta). Cada vez por um centímetro. Um centímetro. Por quê? Porque cada centímetro valia bônus. Cada centímetro era um título de jornal. Cada centímetro adiava o momento em que ele teria que encarar a pergunta: e agora, estou sozinho?

O sistema de competição da época permitia que ele escolhesse quando saltar. Ele entrava em pista com o sarrafo já no recorde mundial. Saltava uma vez, acertava, e abandonava a competição. Os organizadores reclamavam, o público vaiava, mas o dinheiro caía na conta. Era um artista que recusava o bis. Não por preguiça. Por proteção.

Renato, um jornalista italiano que cobriu o meeting de Sestriere em 1994, me contou um bastidor: antes do salto histórico, Bubka passou duas horas trancado no vestiário. Não aquecendo. Não visualizando. Apenas sentado, olhando para a parede. O fisioterapeuta bateu na porta três vezes. Bubka respondeu: — “Deixem-me aqui. Lá fora, eles querem que eu mate o homem que sou. Quando eu sair, serei outro.”

Ele saiu, pegou a vara (a “Super Pole”, um modelo exclusivo que ele mesmo desenhou com engenheiros ucranianos), correu 18 passadas exatas, e saltou 6,15m. O recorde que ainda hoje é o maior não batido da história. Mas então, ao invés de comemorar, ele foi direto para o ônibus. Não deu entrevistas. Não olhou para trás. Porque naquela noite, ele não venceu o recorde. Ele venceu a platéia. Venceu o sistema. Venceu a si mesmo. E quando você vence tudo, o que sobra?

Os anos seguintes provaram que sobra o vazio. Em 1996, em Atlanta, Bubka falhou três vezes nos 5,70m, uma altura que ele superava de olhos fechados. Lesão? Sim, no tendão de Aquiles. Mas a lesão real era outra: ele não tinha mais motivos para saltar. O recorde de 6,15m era seu. O ouro olímpico (que ele só conquistou em Seul 88, com 5,90m) já estava na estante. Ele havia matado o monstro. E, no processo, matou uma parte de si mesmo.

Hoje, Raphael Holzdeppe, Sam Kendricks, Mondo Duplantis, todos eles usam varas de fibra de carbono, pistas sintéticas, gerenciamento de cargas, psicólogos. Duplantis já saltou 6,23m em 2023. Mas ainda não é o recorde de Bubka. Porque o recorde de Bubka não é uma medida de altura. É uma medida de resistência. Ele competiu com o regime soviético, com a solidão, com a pressão de ser o único capaz. Mondo compete com Mondo. É mais leve, mais são, mas é menos épico.

O que a TV não mostra é que, nos últimos anos de carreira, Bubka entrava em pista e pedia para os organizadores desligarem o telão. Não queria ver o replay. Não queria ver o próprio rosto. Queria apenas o silêncio do momento em que o corpo descola do chão. Naquele instante, ele dizia, ele era livre. Mas o instante durava 0,7 segundos. O resto era eternidade.

Diz a lenda que, em uma competição em Berlim, um repórter perguntou o que ele pensava quando corria. Bubka respondeu: “Não penso. Penso que estou caindo. E que preciso voar. Se pensar, caio de verdade.” Ele voou mais alto que ninguém porque aceitou que a queda era inevitável. O recorde dos 6,15m não é um número. É o testemunho de que, para ser eterno, é preciso estar disposto a morrer para o mundo. Bubka morreu para o esporte em 1994. O que veio depois foi apenas a sombra de um homem que, ao atingir o topo, descobriu que o ar era rarefeito demais para respirar.

Hoje, quando vejo Duplantis sorrir após cada salto, lembro de Bubka. E penso: o sueco nunca saberá o que é saltar com a corda no pescoço. O recorde de Bubka não está no livro dos recordes. Está no subsolo da alma de quem já sentiu que, se não quebrar a si mesmo, o mundo quebra você.

E é por isso que 6,15m ainda não caiu. Porque não é um limite físico. É um limite existencial.

Scroll to Top