A Madrugada dos Condenados
Era uma noite de julho de 2013. O Mineirão estava tomado por um silêncio que mais parecia um lamento. O Atlético Mineiro havia perdido por 2 a 0 para o Newell’s Old Boys, em Rosário, e a classificação para a final da Libertadores era um sonho que se desfazia. Poucos acreditavam. Eu estava lá, na arquibancada, vendo a esperança se esvair. Mas o futebol, malandramente, reserva suas reviravoltas para os corajosos. Ninguém naquela noite fria poderia imaginar que aquele time, chamado de ‘galo’, estava prestes a escrever a página mais épica da sua história.
O Contexto: Um Clube em Busca de Identidade
Para entender a magnitude da história do Atlético Mineiro em 2013, precisamos voltar um pouco. O clube, fundado em 1908, vivia uma seca de títulos importantes. A última grande conquista havia sido o Campeonato Brasileiro de 1971, e o fantasma do ‘vice’ parecia perseguir o Galo. Torcedores como meu avô, que viram times incríveis nas décadas de 70 e 80, já não acreditavam em dias de glória internacional. Mas a partir de 2012, algo mudou. A contratação de Ronaldinho Gaúcho, R49, trouxe não só talento, mas uma aura de estrelato. O time de Cuca começou a ganhar corpo, com jogadores como Victor, Réver, Leonardo Silva, Pierre, Bernard e Jô.
A Campanha: Passo a Passo em Direção ao Impossível
A fase de grupos não foi fácil. O Galo enfrentou São Paulo, Arsenal de Sarandí e The Strongest. Perdeu para o São Paulo em casa, mas se classificou em segundo lugar. Nas oitavas, um duelo brasileiro contra o São Paulo de novo, e desta vez o Galo mostrou força: venceu por 2 a 1 no Morumbi e segurou o 0 a 0 no Mineirão. A virada alvinegra começava a ganhar contornos de realidade.
Nas quartas, o Tijuana do México. E aí veio um dos momentos mais marcantes da campanha. Depois de perder por 2 a 2 no México (gols fora contavam dobrado, então o 2 a 0 mexicano era um baque), o Galo precisava de uma vitória simples. Aconteceu a virada histórica contra o Tijuana no Mineirão: 3 a 1, com show de Ronaldinho e Bernard. O estádio explodiu. A torcida, que já havia lotado o aeroporto para receber o time após o jogo na México, começou a acreditar.
Na semi, o tombo contra o Newell’s. Perdemos por 2 a 0 na Argentina e o clima era de velório.
O Jogo da Virada: 2 de Julho de 2013
O Mineirão estava lotado, mais de 50 mil alvinegros. Aos 25 minutos do primeiro tempo, Bernard cruzou, e Guilherme (que entrou no lugar de Ronaldinho) cabeceou para o fundo das redes. 1 a 0. O primeiro gol veio cedo, e a esperança ressurgiu. Aos 41, Jô aproveitou um cruzamento de Marcos Rocha e fez 2 a 0. A prorrogação estava garantida. O Newell’s estava atordoado. No segundo tempo, o Galo pressionou, mas o tempo normal terminou 2 a 0. Na prorrogação, o Newell’s ainda assustou, mas o goleiro Victor, gigante, segurou a vantagem. Nos pênaltis, Victor defendeu a cobrança de Maxi Rodríguez, e o Galo venceu por 3 a 2. A classificação foi um delírio coletivo.
A Grande Final: A Consagração da Era Ronaldinho Gaúcho no Galo
A final da Libertadores 2013 Olimpia era contra o Olimpia, do Paraguai, um time que já havia sido campeão. O primeiro jogo, no Paraguai, foi um banho de água fria: o Olimpia venceu por 2 a 0, com gols no início e fim do jogo. O Atlético parecia ter perdido a chance. A torcida, novamente, via o fantasma do vice.
O jogo de volta, em 24 de julho de 2013, no Mineirão, foi a apoteose. O estádio estava uma caldeirão. Aos 7 minutos, Jô recebeu de Ronaldinho e tocou na saída do goleiro: 1 a 0. Aos 40, Leonardo Silva cabeceou após escanteio: 2 a 0. O primeiro tempo terminou com o Galo com a vantagem. No segundo, o Olimpia tentou, mas Victor fez defesas milagrosas. Aos 41 minutos do segundo tempo, um lance polêmico: o lateral do Olimpia tocou a bola com a mão na área, pênalti. Leonardo Silva converteu. 3 a 0. O título estava garantido. O Atlético Mineiro era campeão da América pela primeira vez.
Lembro-me de abraçar desconhecidos, de chorar como criança. Aquela conquista da Libertadores 2013 não foi apenas um título. Foi a redenção de gerações. Foi a prova de que o ‘Galo’ podia voar. A era Ronaldinho Gaúcho no Galo foi coroada com aquele momento. Ele, que chegara contestado, saiu como ídolo eterno.
O Legado de 2013
O título de 2013 mudou a história do Atlético Mineiro. Trouxe autoconfiança, visibilidade e novos títulos. Em 2014, o Galo conquistou a Recopa Sul-Americana e a Copa do Brasil. O time se tornou referência no futebol brasileiro. A campanha ficou marcada pela garra, pela virada e pelo apoio incondicional da torcida. Os jogos no Mineirão se tornaram um show à parte, com a massa atleticana empurrando o time.
Para quem viveu aqueles dias, fica a lembrança de um time que não desistiu nunca. O ‘Voo da Fênix’ é uma metáfora perfeita: das cinzas de 1971, do vice de 1980, das derrotas sofridas, o Atlético Mineiro renasceu em 2013. E mostrou que, no futebol, a fé move montanhas. Ou, no caso, faz um galo alvinegro conquistar a América.
Curiosidades de Bastidor
Uma história que poucos sabem: antes da semifinal contra o Newell’s, o técnico Cuca reuniu o elenco no vestiário e mostrou um vídeo com os melhores momentos da torcida. Dizem que Ronaldinho, emocionado, disse: ‘Vamos fazer história’. Outra: na final, o meia Bernard, que se transferiu para o futebol europeu logo depois, jogou com uma lesão no tornozelo, mas não quis sair. ‘É agora ou nunca’, falou. E foi.
O presidente Alexandre Kalil, na época, fez uma aposta: se o time fosse campeão, cortaria o cabelo (ele tinha cabelos compridos). E cumpriu. Esses pequenos detalhes humanizam a conquista e mostram que, por trás dos atletas, existem pessoas comuns realizando sonhos extraordinários.
A virada histórica contra o Tijuana também teve seu toque de superstição. Antes do jogo, o roupeiro pediu que todos os jogadores usassem a mesma meia que usaram no jogo de ida. E funcionou. No futebol, como na vida, os rituais importam.
Dados Estatísticos Surpreendentes
Para os amantes de números, a campanha de 2013 do Atlético Mineiro foi repleta de marcas. Foram 14 jogos na Libertadores: 8 vitórias, 4 empates e 2 derrotas. 30 gols marcados e 18 sofridos. Jô foi o artilheiro do time com 7 gols, seguido por Diego Tardelli com 5. Ronaldinho deu 5 assistências e foi eleito o melhor jogador da competição. O goleiro Victor defendeu 3 pênaltis na campanha (dois contra o Newell’s e um na final). A média de público no Mineirão foi de mais de 40 mil torcedores por jogo. Esses números mostram a consistência de um time que soube equilibrar técnica e raça.
A Crônica Detalhada da Final
Voltemos ao dia 24 de julho de 2013. O Mineirão, com seus mais de 58 mil torcedores, era um caldeirão. Antes do jogo, a tensão era palpável. O Olimpia, experiente, sabia que uma vantagem de 2 a 0 era perigosa. O Atlético entrou em campo com Victor, Marcos Rocha, Leonardo Silva, Réver, Júnior César; Pierre, Josué, Guilherme; Bernard, Ronaldinho e Jô. O técnico Cuca optou por um esquema ofensivo.
O primeiro gol saiu cedo: aos 7 minutos, Ronaldinho lançou Jô, que dominou e bateu cruzado. 1 a 0. O Olimpia sentiu o golpe. O Galo continuou pressionando. Aos 40, escanteio cobrado por Ronaldinho, Leonardo Silva subiu mais alto e cabeceou no ângulo: 2 a 0. O primeiro tempo terminou com o Galo no ataque.
No segundo tempo, o Olimpia cresceu. O time paraguaio quase marcou aos 15, mas Victor fez uma defesa espetacular. Aos 25, nova intervenção de Victor em chute de dentro da área. O Galo parecia cansado, mas a torcida empurrava. Aos 41, o lance polêmico: cruzamento de Marcos Rocha, a bola bate no braço do lateral Salustiano. Pênalti. Leonardo Silva cobrou e fez 3 a 0. O estádio explodiu. O apito final foi um alívio e uma explosão de alegria.
Os jogadores se ajoelharam no gramado, agradecendo. Ronaldinho levantou a taça com lágrimas nos olhos. A torcida cantava ‘É campeão’ sem parar. A festa durou a noite toda. O Atlético Mineiro, enfim, era gigante.
Para quem não viveu, fica este relato. Para quem viveu, fica a certeza de que o futebol é capaz de nos dar os momentos mais sublimes. O Galo de 2013 nunca será esquecido.