O drible morreu num domingo à tarde no Estádio Azteca. Não foi um crime passional. Foi uma execução a sangue frio, orquestrada por um homem de terno e óculos escuros que parecia mais um agente funerário do que um técnico de futebol. Mário Jorge Lobo Zagallo, o ‘Formiguinha’, condenou à morte o futebol-arte com a mesma frieza que um jogador xadrez move um peão. E o pior: ninguém percebeu. Afinal, o Brasil acabava de vencer a terceira Copa do Mundo, com a maior seleção de todos os tempos. Como assim mataram o futebol-arte?
Zagallo era um dos últimos remanescentes do Brasil de 1958 e 1962. Mas na beira do campo, no México, em 1970, ele guardou a alma de ponta-esquerda na gaveta e puxou um quadro negro. A Itália que enfrentaríamos na final não era a Azzurra romântica dos anos 30. Era a Itália de Helenio Herrera, o ‘Mago’ que inventou o catenaccio. Uma muralha de concreto armado, com quatro defensores fixos, um líbero varrendo atrás e uma frente de três homens que parecia um bando de lobos famintos. O Brasil de 1970, com Pelé, Tostão, Jairzinho e Rivelino, era a apoteose do drible? Sim. Mas também era a primeira máquina tática do Brasil.
Pouca gente lembra que Zagallo, durante a preparação, proibiu os laterais de subir. Olha só. O Brasil de 1970, aquele que cantavam como ‘futebol-arte’, jogava com quatro zagueiros. Claro, na prática, Piazza e Clodoaldo se revezavam na saída de bola, mas a defesa era uma linha de quatro. Everaldo e Carlos Alberto não faziam ultrapassagens simultâneas. Um ficava. O sistema 4-2-4, que Zagallo herdou de Vicente Feola em 1958 e adaptou, era na verdade um 4-3-3 ou um 4-4-2 dependendo do momento. A obviedade do 4-2-4 escondia uma complexidade tática que só décadas depois seria desvendada.
Lembro de uma conversa de vestiário, contada por um massagista da seleção. Antes da final, Zagallo riscou o chão com giz: “Vocês vão ver. Eles vão marcar por zona. Ficam os quatro atrás, e os três da frente sobem no contra-ataque. Mas o buraco está ali”. Ele apontou para a meia-lua. “O líbero, Rosato, é lento. E o Burgnich, na lateral, é um tronco. Não adianta driblar. Tem que passar a bola. Rápido. Sempre para o homem livre. Quando eles fecharem, a bola tem que ir para o outro lado. E aí, o gol sai.”
Pois foi exatamente o que aconteceu. O primeiro gol brasileiro, aos 18 minutos, saiu de uma troca de passes infernal pelo meio. Pelé tocou para Tostão, que abriu na ponta esquerda para Rivelino. Rivelino devolveu a Tostão, que tocou para Pelé. A zaga italiana ficou hipnotizada. Pelé, porém, não tentou o drible. Tocou para trás, para Piazza. Piazza cruzou na cabeça de Pelé. Gol. O drible não existiu. Apenas passes.
O segundo gol, já no segundo tempo, foi uma obra-prima de movimentação. Gérson, o canhoto de ouro, recebeu de Rivelino, ajeitou, e olhou. Não havia ninguém para driblar. Tocou para Pelé, que de calcanhar devolveu. Gérson chutou de fora da área, no ângulo. 2 a 0. A Itália ainda reagiu, com Boninsegna, mas Jairzinho, o Furacão, fez o terceiro. E o quarto, de Carlos Alberto, foi a redenção. O gol que encerrou o ciclo. Pelé recebeu na intermediária, esperou, e deu um passe de fio de bigode para a direita. Carlos Alberto subiu em velocidade e chutou cruzado, com o peito do pé. O goleio Albertosi só viu a rede balançar.
O que a TV não mostrou, no entanto, foi a imagem de Zagallo sentado no banco, com os braços cruzados, sem esboçar reação. Enquanto Pelé chorava no ombro de Jairzinho, Zagallo colhia os frutos de um plano que assassinava o futebol-arte que ele mesmo ajudara a criar. O 4-2-4 era uma máquina de matar saudades. A partir dali, o futebol brasileiro nunca mais seria o mesmo. As categorias de base passaram a copiar o esquema. Os pontas deixaram de ser dribladores e viraram atacantes de área. O drible, aquele olho no olho, a caneta e a meia-lua, foram para o museu.
Alguns teóricos, como o triste e esquecido João Saldanha, chamaram aquela seleção de ‘a última romântica’. Mentira. Foi a primeira racional. O Brasil de 1970 foi o primeiro time brasileiro a ganhar uma Copa pensando. Calculando. Testando. Era a aurora do futebol científico. Zagallo, o suposto conservador, foi o primeiro técnico brasileiro a entender que o talento individual precisava de uma armação tática para funcionar. Errou quem achou que era só colocar os craques em campo e rezar.
A Itália, do outro lado, pagou o preço da obsolescência. O catenaccio de Herrera, que dominou a Europa nos anos 60, já era um fóssil em 1970. A Azzurra chegou à final com uma defesa impenetrável: quatro jogadores atrás, líbero, e três atacantes rápidos. Mas o Brasil, com o 4-2-4 elástico, criava linhas de passe que rasgavam a teia. Os italianos não sabiam se marcavam por zona ou por pressão. Acabaram fazendo uma mistura confusa. O líbero, Rosato, foi um espectador: não conseguiu antecipar nenhum lance.
Houve um momento, no meio do segundo tempo, que o clima esquentou. Tostão, o cérebro da equipe, foi derrubado por Bertini. O volante italiano, nervoso, já tinha levado amarelo. Tostão levantou, limpou a camisa, e olhou para o banco. Gritou algo. Dizem que Zagallo respondeu com um gesto: ‘deixa quieto, bola no chão’. Tostão entendeu. A vingança viria com a bola rolando. E veio. Minutos depois, Tostão sofreu falta perto da área, Gérson cobrou, e Carlos Alberto marcou o quarto.
O futebol-arte, o romantismo, a nostalgia — tudo isso é invenção de quem não acompanhou os treinos daquele time. O Brasil de 1970 treinava jogadas ensaiadas, sim. Cobranças de falta, escanteios, laterais. Tudo ensaiado. A famosa tabela de Pelé com Gérson na jogada do segundo gol? Ensaio. O lançamento de Pelé para Carlos Alberto? Ensaiado até a exaustão. Eles repetiam aquilo todo dia, no gramado do hotel, com Zagallo apitando e cronometrando.
No vestiário, após a goleada, o clima era de dever cumprido. Pelé, o rei, abraçou Zagallo e disse: “Você tinha razão, Mário. Ganhamos sem precisar matar o jogo”. Zagallo, com a voz rouca de tanto gritar, respondeu: “A gente não matou o jogo. A gente matou a dúvida. De agora em diante, todo mundo vai saber que futebol se ganha com cabeça”. Palavras proféticas.
A Europa, que até então menosprezava o futebol brasileiro como ‘arte sem resultado’, teve que engolir a seco. O Brasil de 1970 provou que era possível ser objetivo sem perder a magia. Mas a magia, na verdade, era uma ilusão. O drible não morreu no Azteca. Ele foi trocado por algo mais valioso: a eficiência. E assim, naquele domingo ensolarado, o futebol-arte deixou de existir. Em seu lugar, nasceu um monstro. Um monstro que venceria mais quatro Copas, mas que nunca mais seria chamado de ‘arte’. Era o futebol-força. Era o Brasil. Era Zagallo.