Era uma quarta-feira de abril de 2007, e o Maracanã pulsava sob o peso de um clássico. Flamengo e Vasco se enfrentavam, e o Brasil parava. Mas o que aconteceu nos minutos que antecederam o jogo – e, mais especificamente, nos 45 segundos de transmissão ao vivo – ainda ecoa nos corredores do jornalismo esportivo como um marco de como o profissionalismo e o ego podem colidir em um acidente televisionado.
Romário, o Baixinho, já não era mais aquele atacante implacável de 94. Em 2007, ele era o centroavante que ainda acreditava ter拿 o controle da própria narrativa. E a Rede Globo, que detinha os direitos de transmissão do Campeonato Carioca, tinha um contrato rígido: antes da partida, os principais jogadores de cada equipe dariam uma entrevista rápida, ao vivo, sem edição. O problema? Romário não estava mais disposto a ser um boneco de ventríloquo.
O repórter, um jovem e promissor profissional que hoje prefere não ter o nome citado, aproximou-se com o microfone da Globo. A pergunta padrão: “Romário, como você vê o clássico de hoje?”. O Baixinho, com os olhos vidrados em algum ponto além da câmera, respondeu com uma frieza cirúrgica: “Vou fazer o meu trabalho. Mas vocês, da imprensa, só sabem criticar. Ninguém fala do que acontece nos bastidores, das promessas não cumpridas. Vocês são todos uns mercenários”. O repórter, visivelmente desconcertado, tentou retomar o controle: “Romário, mas e a partida? O Vasco está preparado?”. O jogador então cuspiu: “Preparado? O Vasco está uma bagunça. Diretoria não paga, treinador não treina. E vocês, da Globo, só querem ibope. Essa pergunta aí é pra encher tempo. Tchau”. E virou as costas. Ao vivo. Para todo o Brasil.
Na central técnica, o diretor de esportes – um homem que já havia comandado coberturas de Copas e Olimpíadas – suou frio. O corte rápido para o comercial foi imediato, mas o estrago estava feito. Nos minutos seguintes, os telefones do departamento de jornalismo da Globo não pararam de tocar. A diretoria exigia uma reunião de emergência. O contrato com o Vasco previa multas para declarações que denegrissem a imagem do clube ou da competição. Romário havia feito exatamente isso. Mas o que ninguém sabia é que, horas antes, o atacante havia recebido uma ligação de um dirigente vascaíno prometendo pagamento de salários atrasados em troca de uma atuação ‘controlada’. A promessa não foi cumprida. E Romário, como sempre, fez o que lhe vinha à cabeça.
O episódio rendeu um processo nos bastidores. A Globo, para evitar que o caso se tornasse uma novela pública, optou por um acordo: em vez de multar o jogador, a emissora exigiu que ele participasse de uma campanha institucional sobre ‘fair play’. Romário aceitou, mas nunca apareceu para gravar. A briga nos corredores da emissora, segundo funcionários que estavam lá, foi digna de um clássico. O diretor de programação, um senhor de terno e gravata que não entendia de futebol, berrava: “Como assim ele nos chamou de mercenários ao vivo? Isso é inaceitável!”. O diretor de esportes, mais sereno, respondeu: “Ele tem razão. Nós tratamos os jogadores como gado. Só queremos a foto e o som. E cobramos deles uma postura de robôs”. A resposta foi um silêncio constrangedor. Porque, no fundo, todos sabiam que era verdade.
Esse caso, que nunca foi a público com detalhes, ilustra o poder e a fragilidade do jornalismo esportivo nos anos 2000. A Globo, que reinava absoluta, aprendeu que o microfone aberto era uma faca de dois gumes. Romário, por sua vez, mostrou que, mesmo em fim de carreira, ainda era capaz de balançar as estruturas. Hoje, quando vejo repórteres com sorrisos amarelos tentando extrair respostas de jogadores cada vez mais ensaiados, lembro daquela noite. E penso: talvez o futebol precisasse de mais Romários – não para jogar, mas para lembrar à imprensa que ela não é dona da verdade.
Mas, claro, isso nunca vai aparecer no VT dos melhores momentos.