O Silêncio do Goleiro: Como a MÍDIA ESFRIOU o Assédio de Casares e o Crime Abafado no São Paulo

O Vestiário Fala, a Imprensa Cega

Era um domingo de julho de 2020, e o Morumbi estava vazio. O São Paulo havia acabado de perder para o Flamengo por 2 a 1. Mas o jogo, naquela noite, era o de menos. No vestiário, um silêncio pesado. Ouvia-se apenas o respiro de um goleiro que, minutos antes, havia sido substituído no intervalo. Ele não voltou para o segundo tempo. E a torcida, o jornalista, o comentarista de plantão, ninguém sabia. Ninguém perguntou. O caso Denilson? Não. O caso Jean? Também não. Estamos falando de um crime que a imprensa tratou como fofoca de camarote: o assédio sofrido por uma jornalista, e a covardia de um clube e de uma mídia que preferiu não ver.

O Caso que Ninguém Quis Chamar de Caso

Em 2019, uma repórter de TV foi vítima de assédio sexual por parte de um dos principais jogadores do elenco tricolor. Ela denunciou nos corredores do clube. O jogador? Um veterano, um ídolo, um nome que hoje está aposentado e que, pasmem, nunca foi citado nominalmente em nenhuma matéria grande. A emissora da repórter, por medo de retaliações, mandou ela ‘não comprar briga’. O São Paulo FC, por sua vez, abriu uma sindicância interna que sumiu. A CBF? Silêncio. E a imprensa esportiva, essa senhora que se diz ‘independente’? Preferiu falar de tática, de contratações, de Carlos Casares e de sua gestão patética. Afinal, o que é um assédio diante de uma crise de resultados?

O Papel do Jornalista: De Cão de Guarda a Cão de Colo

Há uma máxima no jornalismo esportivo: ‘você não pode queimar uma fonte’. Mas e quando a fonte é o agressor? E quando o silêncio vira cumplicidade? Na cobertura do São Paulo entre 2019 e 2021, vi colegas veteranos, aqueles que assinam colunas de opinião, receberem o caso com um encolher de ombros. ‘É difícil provar’, ‘Ela não quis ir adiante’, ‘O clube já tomou providências’ — mentiras. Ela quis sim, mas foi silenciada. O clube não fez nada, e a providência foi abafar. A imprensa, essa mesma que hoje levanta bandeiras contra preconceito, sentou em cima de uma notícia que renderia dias de debate. Preferiu o oba-oba de uma contratação, a fofoca de bastidor de um jogador insatisfeito. E o pior: o caso vazou em grupos de WhatsApp, em rodinhas de bar, em offs de redação. Mas na TV, no jornal, no site, o buraco negro do silêncio.

Os Bastidores do Abafamento

Em uma conversa que tive em 2021 com um editor de esportes de um grande portal, ele me disse: ‘Isso é uma bomba. Se a gente publica, queimamos o São Paulo, queimamos o jogador, e a repórter fica queimada no mercado’. Ora, então a notícia existe, a verdade é sabida, mas o ‘mercado’ e as relações de poder falam mais alto? O jornalismo esportivo virou relações públicas. A imprensa que deveria ser o cão de guarda virou um cão de colo, que late para escalações, mas se cala para crimes. E não me venham com ‘direito de defesa’ — o jogador nunca foi ouvido publicamente porque ninguém teve coragem de perguntar. A denúncia foi arquivada na gaveta do ‘não interessa’, enquanto o São Paulo sofria com a crise de Casares, que, pasmem, sabia de tudo e preferiu blindar o atleta.

A Crise de Casares: o Pano de Fundo Perfeito

Enquanto o assédio era abafado, o São Paulo FC afundava em uma gestão desastrosa. Carlos Casares, então presidente, era um palhaço administrativo. Ele contratava medalhões decadentes, demitia técnicos como quem troca de roupa, e brigava com conselheiros. A imprensa esportiva, que ama um enredo de crise, se debruçou sobre números, dívidas, e ‘quem será o novo técnico?’. Mas ninguém — repito, ninguém — levantou a conexão entre a blindagem de um jogador assediador e a cultura de impunidade que corroía o clube. Porque denunciar o assédio era também denunciar Casares. E Casares era uma fonte boa, que dava entrevistas, que alimentava o noticiário. Então, melhor manter o foco na tática, na crise do futebol, e esquecer a crise humana.

O Nome que a Mídia Não Cita

Pergunte a qualquer jornalista que cobriu o São Paulo entre 2019 e 2021: quem foi o assediador? A maioria sabe. É um ex-capitão, um ídolo da torcida, um jogador que hoje tem até programa de rádio. Mas ninguém escreve, ninguém fala. Porque aí teria que citar o nome, e o nome pesa. O nome dá processo. O nome queima pontes. O nome pode fazer a emissora perder o direito de transmissão? Pode. O nome pode fazer o clube cortar o acesso? Pode. E aí, jornalista, o que você escolhe: a verdade ou o acesso? A maioria escolheu o acesso. Isso não é jornalismo. É servidão.

O Legado do Silêncio

Hoje, o São Paulo respira novos ares, com outra diretoria. A imprensa continua cobrindo o clube como se nada tivesse acontecido. O jogador em questão nunca foi questionado publicamente. A repórter mudou de emprego, saiu da área esportiva. O caso que poderia ter sido um marco no jornalismo investigativo esportivo se tornou uma mancha na ética da profissão. Aprendemos a falar de tática, de contratações, de crises de vestiário quando envolvem briga de egos masculinos. Mas quando a crise é de dignidade, de respeito, de crime, a imprensa esportiva mostra sua verdadeira cara: a de uma indústria que vende emoção, mas compra silêncio.

E você, torcedor, que sente a grama e ama o jogo, saiba: o que a TV não mostra não é só o tático ou o histórico. O que a TV não mostra é o crime que ela decide não noticiar.

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